O ministro e sua saúde mental – Novembro de 2014

Uma abordagem situacional

sobre a depressão

em pastores

A Organização Mundial de Saúde (OMS), através de pesquisas, tem demonstrado que a depressão é o mal do século. Segundo esta instituição os casos de depressão tendem a superar as doenças cardíacas e o câncer, nos próximos vinte anos. Também será a doença que mais gerará gastos econômicos e sociais para os governos. Segundo Sexana, médico psiquiatra da OMS:

“Nós poderíamos chamar isso de uma epidemia silenciosa, porque a depressão está sendo cada vez mais diagnosticada, está em toda parte e deve aumentar em termos de proporção, enquanto a (ocorrência) de outras doenças está diminuindo”.

A realidade da depressão entre pastores

Algumas pesquisas entre o público evangélico têm demonstrado que o número de pastores com problemas psiquiátricos tem aumentado. Segundo o psiquiatra Dr. Pércio, essas pesquisas tem apontado que, entre os pastores, esse índice é maior que em outras profissões.

Recentemente foi verificado que, em um grupo amostral, 26% eram pastores portadores de problemas psiquiátricos e, no caso, depressão. Segundo a pesquisa de Lotufo Neto, medico psiquiatra e professor de medicina do Hospital das Clinicas em São Paulo, foi encontrado maior incidência de doenças mentais entre ministros protestantes se comparados à população geral, e os transtornos depressivos responderam por 16,4% das doenças mentais encontradas nos ministros protestantes.

Conforme pesquisas da Universidade do Rio Grande do Sul, a UNISINOS, o pastor, líder carismático, ungido, investido da imagem do “homem de Deus” na comunidade, tem de estar sempre pronto e disponível para as atividades pastorais. Essa pronta disponibilidade atrelada à falta de um horário determinado para as atividades pastorais é apontada como uma das causas predisponentes a doenças.

Essas atividades frequentemente demandam uma alternância de emoções: sepultamento pela manhã, reunião de liderança à tarde, casamento em final de tarde e culto à noite; ou seja, a vivência, num mesmo dia, da dor e do luto, o exercício da lógica e a preocupação, a celebração de momento de alegria, prédica e exortação; e atreladas a essas atividades, todas as emoções sentidas, expressas e contidas pelo veículo sagrado.

A função pastoral está atrelada a responsabilidades e preocupações com o reino de Deus de uma forma ampla (crescimento do reino, manutenção, assistência a líderes e a membros da igreja…) todas essas atividades dinâmicas causam profundo desgaste físico e, às vezes, até emocional. Existem alguns fatores na análise de uma depressão.

Fisiopatologia da depressão entre pastores

Fatores endógenos. Existem várias hipóteses para a depressão e uma das mais aceitas é a biológica. Podem ocorrer deficiências dos neurotransmissores, como a serotonina (substância que modula o humor, sono e apetite), a noradrenalina (moduladora do humor), a dopamina (substância estimulante). O baixo nível de captação neuronal dessas substâncias causa a depressão.

Fatores exógenos. Fatores ambientais, como por exemplo, o estresse, circunstâncias adversas, problemas profissionais, familiares, momentos de perda, de ruptura, etc., ou seja, trata-se de uma Depressão causada fundamentalmente por fatores ambientais externos.

Sintomas. Os sintomas de depressão são muito variados e podem mudar de uma pessoa para outra. Existe uma forma didática e básica para conseguir detectar seus sintomas e são chamados: a) Inibição Psíquica, b) Estreitamento do campo Vivencial e c) Sofrimento Moral.

a) Inibição psíquica

Inibição psíquica é o processo que leva o deprimido a ficar lento em suas ações. Ela faz com que tarefas do cotidiano se tornem uma eternidade, pois não há dinamismo mental. Compromete a memória, o rendimento intelectual e o verbal.

b) Estreitamento do campo vivencial (perda de prazer)

O estreitamento é uma expressão que representa a progressiva perda do prazer. Essa evolução da depressão pode chegar a Anedonia, que é a incapacidade em sentir prazer em suas atividades, até mesmo as que, no passado, geravam prazer.

Nessa fase, o individuo se fecha para o mundo, pois não há ânimo para as atividades ocupacionais, as quais são substituídas por grandes períodos de isolamento. Não existe vivência construtiva com os outros e nem consigo mesmo. Nada mais pode gerar prazer.

c) Sofrimento moral (autoestima baixa)

Esse sentimento é caracterizado por sentimentos de menos valia. Trata-se de um sentimento de autodepreciação, auto-acusação, inferioridade, incompetência, culpa rejeição, fraqueza.

Dados demonstram que, na fase do sofrimento moral, é elevado o número de pessoas com ideação suicida. A pessoa depressiva se vê como o pior ser humano do mundo, e se acha o ser humano mais incompetente que existe. Para diminuir ou acabar com essa dor, alguns buscam a saída no suicido.

Em sua pesquisa o Doutor em Psiquiatria e presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil, Dr. Pércio, identificou algumas causas que levaram esse grupo amostral de pastores à depressão. São elas:

Problemas com lideranças da igreja;

Baixa remuneração;

Mudança constante de igreja;

Falta de apoio da igreja local;

Pastor tem expectativas que não são correspondidas pela igreja;

Estresse relacionado à atividade pastoral;

Queixas das esposas com relação ao tratamento dado pela igreja;

Pecado;

Enfraquecimento na fé.

A Bíblia nos mostra homens que tiveram grande experiência com Deus e que passaram por momentos de comprometimento de sua saúde. Elias foi um dos personagens que passou por uma depressão. Mesmo tendo passado por este período difícil de sua vida, Deus lhe mostrou uma saída.

Algumas intervenções
para superar a depressão

1) Abrindo-se para uma experiência diferente com Deus.

Vejamos o que nos ensina o texto de 1Reis 19: 5-21:

“E depois do terremoto um fogo, porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada. E sucedeu que, ouvindo-a Elias, envolveu o seu rosto na sua capa, e saiu, e pôs-se à entrada da caverna. E eis que veio a ele uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias? Versos 12 e 13.

No quadro depressivo é comum as pessoas se fecharem para o mundo, porém deve-se incentivar a busca da cura através de uma experiência com Deus, pois Ele sabe como nos ajudar nesse processo. Elias só conseguiu superar seu problema devido a essa experiência espiritual que mudou sua vida e seu ministério.

2) Sabendo que nossa missão é importante para Deus

“E o Senhor lhe disse: Vai, volta pelo teu caminho para o deserto de Damasco; e vem, e unge a Hazael rei sobre a Síria.” Verso 15.

Deus estava reafirmando que a tarefa de Elias era importante para a nação de Israel, naquele momento. O cenário espiritual político estava em declínio e Elias era o homem que seria usado para promover mudanças. Quando alguém entra no quadro depressivo, logo, para ele, seu trabalho, família e comunidade não têm mais importância. É necessário realçar que Deus, em seus propósitos, conta com aquela pessoa, com seus serviços.

3) Superando a decepção com o próximo

“E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram o teu concerto, derribaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada; e só eu fiquei, e buscam a minha vida para ma tirarem.” Verso 14.

A depressão de Elias era exógena. A falta de compromisso das pessoas, o descaso com o sagrado, a superficialidade fizeram com que lhe aflorasse a depressão. Pessoas com o perfil de perfeccionismo podem, no decorrer do ministério, se frustrar, pois vão encontrar pessoas descompromissadas. É necessário saber que nossa missão, como pastores, é oferecer apoio e alimento espiritual e caberá ao outro decidir pela escolha. Desta forma teremos claro, em nossa consciência, o senso de dever cumprido.

4) Utilizar o modelo comportamental adotado por Jesus.

Jesus é nosso modelo perfeito em tudo. Ele possuía engajamento social saudável.

“E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia, e estava ali a mãe de Jesus. E foram também convidados Jesus e os seus discípulos para as bodas.” João 2: 1-2.

Um dos fatores exógenos que leva à depressão é o distanciamento social. Jesus demonstrou muitas vezes estar envolvido com eventos sociais saudáveis.

Dentro da agenda de Jesus, ele destinava períodos para recarregar suas energias vitais, dando tempo para a reflexão, descanso da fatiga gerada pela ministrações. É de suma importância que o ministro saiba desfrutar também de tempos para renovação física e mental, afastando, assim, alguns motivos que desencadeiam a depressão.

A depressão não escolhe idade nem classe social, e nenhum de nós está isento de passar por ela. Por isso, é de suma importância que nós, ministros, estejamos atentos para esses sinais, pois o diagnóstico precoce e a prevenção ainda são o melhor remédio para cura.

Estamos a serviço do Senhor, mas somos de carne e osso. Não oculte de seu médico suas preocupações e ele poderá indicar os exames necessários ou mesmo encaminhá-lo a um especialista.

Novembro de 2014

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Bibliografia

1 – http://www.estadao.com.br/noticias/geral,oms-depressao-sera-doenca-mais-
comum-do-mundo-em-2030,428526,0.htm
Acesso em 12/02/2009.

2 – http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=301&sec=26
Acesso em 01/03/2008.

3 – Deus G. Ribeiro Pérsio. Um Estudo da Depressão em Pastores Protestantes.

4 – LOTUFO NETO, F. Psiquiatria e religião. A prevalência de transtornos mentais
entre ministros protestantes. 1977. Tese (Livre-Docência)–Universidade de
São Paulo, São Paulo, 1977

5 – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação de transtornos mentais
e de comportamento do CID 10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas.
10. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. UNISINOS. Stress na vida religiosa.

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