O ministério modelo – Da obra ‘Ministério Excelente’, 2004

Os quatro evangelhos são a grande fonte
de que dispomos para analisar
o ministério de Jesus.
Basta uma leitura rápida desses textos
para nos encantarmos com a beleza
das narrativas e a riqueza de detalhes
e ênfases quando os autores
descrevem a vida do Senhor.

Neste capítulo, (*) nossa atenção se volta para duas passagens dos evangelhos que resumem os objetivos e as estratégias utilizadas por Jesus: Lucas 4: 18-19 e Mateus 9: 35-39. São textos curtos, mas permitem ampla reflexão sobre o trabalho realizado por Jesus como modelo para a ação pastoral hoje.

Lucas 4: 18-19

Em Lucas 4: 18-19, o leitor do Evangelho encontra uma síntese perfeita do ministério de Jesus. O Senhor havia acabado de passar por um longo período de jejum e tentação, ao final do qual saíra vitorioso. Estava iniciando seu ministério. Jesus foi à Galiléia e sua fama já estava se espalhando. Ia às sinagogas, ensinava e as pessoas ficavam impressionadas não só com o conteúdo de seu ensino, mas também com a forma como ele expunha as Escrituras. Sua palavra tinha autoridade (Mc 1: 22).

Chegando a Nazaré, onde fora criado, Jesus dirigiu-se à sinagoga, leu o texto de Isaías 61: 1-2 e disse que naquele dia aquela palavra profética estava se cumprindo. A leitura que Jesus fez na sinagoga foi a seguinte:

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. (Lc 4: 18-19)

O Espírito do Senhor
está sobre mim, pelo que me ungiu…

Ao dizer que o Espírito do Senhor estava sobre ele, Jesus faz uma grande distinção entre a ação do Espírito na vida dos servos de Deus do Antigo Testamento e em sua própria vida. No AT, o Espírito vinha sobre determinadas pessoas em ocasiões específicas. Dava instruções quanto ao quê deveriam dizer e as impulsionava a ação. Com Jesus era diferente. O Espírito do Senhor estava sobre ele não de forma temporária, mas permanente e representava a plenitude dos dons e da graça divina sobre o Messias:

Repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. (Isaías 11: 2)

O Pai não só entregou um ministério nas mãos de Jesus, mas capacitou-o para a tarefa. O apóstolo Pedro reconheceu o valor dessa unção especial do Espírito sobre Jesus para o desempenho de seu ministério messiânico (At 10: 38).

Com Jesus, inaugurou-se um novo tempo nas relações entre o Espírito e o salvo. Num de seus diálogos com os discípulos, o Senhor disse: R20;E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convoscoR21; (João 14:16). E após sua ressurreição, R20;soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.R21; (Jo 20: 22)

Sem unção do Espírito não há ministério eficiente, há mero profissionalismo; não há sermões, há discursos; não há formação de caráter dos ouvintes, mas informação que serve apenas para o intelecto. Sem unção do Espírito o pregador não tem alimento para dar às almas famintas.

A unção do Espírito traz visão ao ministério pastoral. O espírito abre os olhos do pastor para que ele consiga enxergar as reais necessidades que estão ao seu derredor. No ministério de Jesus, o Espírito o ungiu para diferentes tarefas, como é possível ver nas afirmativas do texto.

… me ungiu para evangelizar os pobres

Quem eram os pobres, aos quais Jesus se referia? Eram aquelas pessoas sem recursos financeiros, desprezadas pelos doutores judeus. Estes as julgavam incapazes de compreender a lei e os ensinos que eles ministravam. Os pobres eram, também, aqueles que tinham consciência de sua fragilidade espiritual e que sabiam que sua justiça própria não os levaria a lugar algum. Por isso, buscavam a graça redentora oferecida pelo Messias.

Os fariseus referiam-se ao povo como se fosse escória: R20;Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita.R21; (Jo 7: 49). Jesus, no entanto, disse que os pobres de espírito são bem-aventurados, porque deles é o reino dos céus (Mt 5: 3). Em muitas situações, os pobres serviram de exemplo em seus ensinos (Mc 12: 42-43; Lc 16: 19-31)

Jesus foi ungido para evangelizar tais pobres. O verbo evangelizar (gr. euaggelizw) significa levar boas notícias, anunciar boas novas. Nas traduções gregas do Antigo Testamento, a palavra era usada para referir-se a qualquer tipo de boa notícia, particularmente aquelas relacionadas à bondade de Deus e às bênçãos trazidas pelo Messias. No NT, o termo é empregado para falar das boas-novas a respeito da vinda do reino de Deus, e da salvação que pode ser obtida através de Cristo.

Evangelizar, no NT, não é apenas fazer o mero anúncio de uma verdade, mas refere-se também a instruir as pessoas a respeito das verdades que pertencem à salvação que há em Cristo. A evangelização praticada por Jesus não era uma proclamação vazia. Exigia mudança de caráter e de comportamento, como aconteceu com a mulher samaritana (Jo 4) ou com Zaqueu (Lc 19).

Jesus tinha visão de ministério. Fora ungido para levar boas notícias aos excluídos. Talvez muitos pastores se vejam limitados no trabalho pastoral porque esteja faltando visão de trabalho. Você foi ungido para quê? Para que tipo de trabalho Deus o chamou e o capacitou? Os ministérios são diversos e as capacitações também.

enviou-me para proclamar
libertação aos cativos

Os grandes opressores da alma do povo eram a lei, o pecado, o poder político romano e, sobretudo, Satanás. Os ouvintes de Jesus eram totalmente escravizados, embora não o admitissem: R20;Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?R21; (Jo 8: 33).

A unção de Jesus era, também, para proclamação de R20;liberdade aos cativosR21;. O verbo R20;proclamarR21; era usado para designar a atividade de um arauto. Sugere formalismo, gravidade e autoridade que deveria ser escutada e obedecida. No Novo Testamento, esse verbo era usado para referir-se à proclamação pública do evangelho e aos assuntos a ele atinentes.

A libertação dos cativos é um tema profundamente enraizado nas Escrituras, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento: Sl 102: 20; 107: 10-16; 146: 7; Is 42: 7; 45: 13; 49: 9, 24, 25; 52R21;2,3; Zc 9: 11, 12; Cl 1: 13. O Senhor é um Deus de liberdade.

Jesus não anunciou libertação política. Após sua ressurreição, quando os discípulos pareciam ainda estar encantados com a idéia de um Messias político, perguntaram-lhe: R20;Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridadeR21; (At 1: 6-7).

Os judeus sofriam a opressão política exercida pelo Império Romano. Jesus sabia que o povo esperava um Messias que trouxesse libertação política. No entanto, ele não se deixou desviar do grande alvo de seu ministério: alcançar os que estavam espiritualmente cativos. A pior escravidão que existe é a do espírito. Quem tem o espírito sob algemas não exerce sua vontade, não pensa, não toma decisões. A liberdade do espírito é a maior que existe. A partir dela, é possível desfrutar de outras liberdades.

O pastor precisa saber para que foi chamado e como vai cumprir a vontade de Deus para sua vida. Muitas vezes, durante o exercício do ministério surgem belas propostas que tentam afastar o vocacionado do seu chamado. Jesus poderia até encantar-se com o sonho de liberdade política de seu povo. Mas, os cativos que ele precisava libertar eram outros.

…restauração da vista aos cegos

A referência aqui é aos que estão mortos em seus delitos. Tais pessoas foram imobilizadas pelo pecado e tornaram-se insensíveis. Não conseguem enxergar o avançado estado de decomposição espiritual em que se encontram até que Cristo abra as portas da prisão e faça com que seus olhos vejam a luz (Is 49: 9).

para pôr em liberdade os oprimidos

É preciso notar a distinção entre as expressões R20;proclamar libertação aos cativosR21; e R20;pôr em liberdade os oprimidosR21;. A primeira fala de anunciação de uma verdade, a segunda fala de ação. Jesus não apenas anunciou que era a liberdade era viável, e não uma utopia, mas ele foi ungido pelo Espírito para, definitivamente, libertar os oprimidos.

e apregoar o ano aceitável do Senhor

O ano aceitável do Senhor; é uma alusão ao ano do jubileu, em que os escravos eram libertos, as dívidas perdoadas, as terras devolvidas aos antigos proprietários, etc. (Lv 25: 8-54). Era um ano de restauração. Na mensagem de Jesus, o R20;ano aceitávelR21; é o momento que Deus escolheu para revelar seu Filho ao mundo. É o tempo em que Ele mostra sua boa vontade aos homens, disposto a celebrar uma nova aliança.

Mateus 9: 35-36

E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades. Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.

Esse texto também ajuda a entender o ministério de Jesus como modelo para o pastorado. A passagem revela diferentes dimensões da atividade de Jesus como pastor de almas.

Jesus, pastor das cidades e dos povoados

Muitos pastores cobiçam pastorear grandes igrejas em movimentados centros urbanos. Sentem arrepios só em pensar na hipótese de trabalhar com comunidades pequenas, interioranas. Nesses casos, o foco desses pastores não são as almas, mas o status que o ministério lhes proporcionará.

Jesus não desprezava as pequenas vilas, onde habitavam pessoas simples e pobres. Tampouco deixava de visitar as grandes cidades de seu tempo. Seu ministério tinha como foco o indivíduo. Por isso, ele ia onde estivesse o homem.

Jesus, mestre

Uma das dimensões do ministério de Jesus era o ensino. Os evangelhos são riquíssimos nas narrativas em que os discípulos sentam-se aos pés de Jesus para ouvir suas lições. Jesus ensinou sobre o reino de Deus, sobre o pecado, sobre o homem, etc. Sua linguagem era direta, clara, objetiva. Usou parábolas para ensinar. Através de fatos conhecidos de seus ouvintes ensinava verdades espirituais profundas (Mt 13, 18, 20, etc.). Jesus permitia que os discípulos fizessem perguntas, tirassem dúvidas (Lc 8: 9). Usou o método de perguntas e respostas (Mc 8: 27). Uma das mais ricas narrativas do Evangelho em que Jesus ensina seus discípulos está em Mt 5 a 7.

O pastor precisa saber ensinar. Precisa ser mestre (Ef 4: 11). Em 1Tim 3: 2, falando acerca dos bispos, o apóstolo Paulo exige que os que aspiram o episcopado sejam aptos para ensinar. Se o pastor não ensina, o rebanho fica desnutrido. Não há igreja que sobreviva sem alimento sólido. É o ensino que coloca a Palavra na mente e no coração do povo.

Jesus, o arauto das boas-novas

Em Mateus 9: 35, o verbo traduzido por R20;pregavaR21; também poderia ser traduzido por R20;proclamavaR21;. O conteúdo da pregação de Jesus era o Evangelho do Reino e o coração de seu ensino está no Sermão do Monte (Mat. 5-7).

Os pregadores contemporâneos estão afastando-se da simplicidade do ensino de Jesus. Estão deturpando a essência do Evangelho. Muitos pregam que a decisão por Cristo trará prosperidade financeira, aumento de bens, muitas riquezas. Fazem promessas de que a aceitação do Evangelho vai resultar numa rechonchuda conta bancária. Que diria Jesus se estivesse sentado num banco de igreja, ouvindo um desses sermões em que os pregadores dão a idéia de que o Evangelho é um negócio que se faz com Deus? Essa é a graça barata criticada pelo teólogo Dietrich Bonhoeffer. É a graça sem compromisso, que Jesus desconheceu.

Jesus e a cura das enfermidades

O ministério não é feito só com palavras. A eloqüência do pregador não garante a satisfação do povo. O ministério se faz com o poder que vem do Espírito de Deus. Jesus era mestre, pregador e também demonstrava que a unção do Senhor estava sobre ele ao curar as enfermidades. O apóstolo Pedro reconheceu isso em At 10: 38.

O ministério pastoral tem de ser holístico, integral, abrangente, como o de Jesus. Ele ensinava, pregava e curava. Fazia tudo movido por compaixão (Mt 9: 36). Muitos são os pastores que fundam igrejas pensando nas vantagens financeiras que poderão obter. São os mercenários condenados por Paulo quando escreveu a Timóteo (1Tim 6:5).

Concluindo

Jesus não se preocupou com o número de seguidores que se agregariam a ele. Quando lhe perguntaram: R20;Senhor, são poucos os que são salvos?R21; ele respondeu: R20;Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão.R21; (Lc 13: 23-24). E, certa vez, ao pregar um duro sermão, quando todos se retiraram, ele perguntou aos discípulos: R20;quereis também vós outros retirar-vos?R21; (Jo 6: 67).

Jesus enfatizou o compromisso e a mudança de vida. Não há lugar para vida cristã descompromissada nos relatos do Novo Testamento: R20;Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.R21; (Lucas 9: 23).

As pessoas deixavam Jesus fascinado. Não as altivas, poderosas, cheias de si. Essas foram duramente criticadas por Jesus. Mas Jesus sentiu compaixão dos que estavam debilitados, dos oprimidos, dos pobres, dos rejeitados, dos considerados pecadores. A esses Jesus dedicou sua vida a fim de restaurá-los e de dar-lhes uma esperança renovada. Esse é o trabalho do pastor.

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Fonte: capítulo do livro “Ministério Excelente” Editora Aleluia, 2004

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