Onde foi parar a nossa causa? – Março/2006

Tudo existe porque há um motivo.
Quando desaparece o fator motivacional,
desaparece também tudo o que foi gerado
por esse fator. Por exemplo, um dia acontecerá
o arrebatamento da igreja
e, então, não haverá mais motivo
para a existência do Cristianismo bíblico
sobre a face da Terra. A igreja só existe
por causa de Jesus Cristo.

Era o ano de 1987 quando me converti na 2ª IPR de Ponta Grossa, PR. Fui batizado em uma chácara que tinha uma piscina com águas correntes (o que era fora do comum na época) pelo então pastor da nossa igreja, o Pr Daniel Zaponi (que saudades!). Jesus tornou-se o motivo da minha existência física, emocional e espiritual. Não conseguia mais viver sem o Espírito Santo morando em meu coração. Eram meus primeiros dias de vida cristã.

Em Cianorte. Que emoção! Lembro-me até hoje do cheiro daquele ônibus velho e barulhento, de nossa chegada àquela cidade, pra mim pequena, mas muito significativa. Já tinha ouvido falar sobre o derramar do Espírito Santo e suas consequências. Os dons espirituais eram buscados por todos que desejavam ansiosamente uma renovação espiritual. Esses não conseguiam mais ser meros religiosos dentro da igreja. O que queriam mesmo era ser discípulos de Jesus Cristo.

Por isso, muitos falavam das maravilhas que Deus operava naquele lugar. Na época, ainda existiam as federações nacional e presbiteriais, que realizavam forte movimento de busca pela obra do Espírito Santo entre jovens e senhoras. Quando a diretoria visitava uma igreja, podia ter certeza de que haveria batismo com o Espírito Santo, profecias, visões, revelações e muita unção da parte do Senhor. Era muito bom. Se não me engano, o presidente da FENAJIR – Federação Nacional de Jovens da Igreja Presbiteriana Renovada – era um jovem (hoje meu amigo) chamado Douglas do Valle. Hoje pastor da 2ª IPR de Londrina, PR.

Ah, sim, me lembro! Esse jovem me inspirava. As lideranças regionais tinham em quem se espelhar. As mocidades das igrejas locais eram motivadas a buscar ao Senhor constantemente. E eles buscavam. Buscavam com prazer. Buscavam porque acreditam na causa em que estavam envolvidos. Buscavam porque tinham a certeza de que as razões que os impulsionavam eram celestiais. Buscavam porque os resultados mostravam que havia muitas pessoas querendo ter mais experiências com a obra do Espírito Santo.

Já em Cianorte, nunca tinha visto tanta gente que acreditava na mesma coisa junta. Era como se Atos dos Apóstolos estivesse acontecendo ali: “Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos… todos os que creram estavam juntos… perseveravam unânimes… tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de co-ração… louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo…”, At 2: 43-47. A realidade bíblica tornava-se uma realidade pessoal para cada encontrista. Isso fortalecia cada vez mais a causa abraçada por todos.

Por falar em “louvando a Deus”, quem não se lembra daquelas músicas. A canção “Os guerreiros se preparam…” fazia ecoar a voz dos pastores. “Obra Santa do Espírito” era o hino oficial da renovação espiritual. Os cânticos eram entoados mais com a boca espiritual do que com a do corpo. Era possível ver no brilho dos olhos de cada cristão a chama ardente do Espírito Santo. E, quanto mais ardia, mais cantavam. Quanto mais cantavam, mais ardia o ardor pela causa.

Quem não se lembra daqueles alojamentos, dos banheiros, dos colégios públicos, daqueles colchões, das filas para o almoço, das refeições, da salada de repolho, da carne com batata, da sala de oração cheia de gente. E, por incrível que pareça para os nossos dias, a sala de oração sempre estava cheia de pessoas que buscavam o batismo com Espírito Santo e o exercício dos dons espirituais. Havia momentos em que era impossível entrar ou andar dentro dela porque o espaço era pequeno para a quantidade de crentes que ali estavam.

O fato é que eu estive lá e, numa época em que o padre Marcelo Rossi nem conhecia a música “tem anjos voando neste lugar”, eu me sentia como se o céu estivesse baixando realmente ali. Essa sensação era visível na expressão facial dos encontristas. Era como se os anjos nos servissem constantemente. Era como se a interação entre o mundo espiritual e o mundo humano não tivesse limites. Era como se a divisória entre o campo celestial e o campo material deixasse de existir por alguns instantes. Era como se a causa divina houvesse incorporado em todos e se tornasse uma forte causa para os humanos cristãos.

Eu, de origem religiosa (por parte de pai, adventista; por parte de mãe, presbiteriana), estava envolvido completamente nessa causa. A “Renovada”, como era conhecida em nossa cidade, estava alicerçada numa espécie de causa trinitária, que se constituía na ênfase ao poder do Espírito Santo, à santificação e ao evangelismo.

Foi uma época interessante. O fato é que a gente acreditava. Eu quase morava na igreja. Ia de terça a domingo (e às vezes na segunda-feira, na casa do pastor Daniel e da irmã Nelcy Zaponi).

Você pode ler este texto e me achar saudosista. E quem sabe até seja mesmo. Porém, tínhamos uma causa. Uma grande, divina, forte e santa causa. Hoje eu me pergunto: onde ela foi parar?

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Fonte: Jornal Aleluia de março de 2006

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