Quando o Crepúsculo Chegar – Setembro/1989

Edificante palavra de ânimo
e coragem, redigida depois de dez anos
de luta contra o período
mais crítico de sua enfermidade

Como é maravilhoso o crepúsculo matutino, quando a luz da aurora vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Não é assim o crepúsculo vespertino, quando o sol vai se pondo mais e mais até anoitecer. A noite chegou. A melancolia, o medo, as preocupações acentuam-se cada vez mais. Não só os homens passam por esses dois estágios da vida; isso também ocorre com os animais e as civilizações. Onde está o esplendor da Grécia, o poderio do Império Romano? Só nos restam relatos históricos e nada mais…

Quero, nesta oportunidade, ater-me à existência humana. O crepúsculo chega por meio de uma enfermidade incurável, da velhice, do abandono do lar por parte do esposo ou da esposa, da morte de um ente querido, da perda de emprego e tantos outros infortúnios. O que fazer? Muitos se deixam vencer e prostram-se, aguardando, na morte, a melhor saída. Outros, porém, enfrentam qualquer circunstância e procuram viver vitoriosamente, antes que a noite chegue.

A história fornece muitos exemplos daqueles que pararam quando ainda muito poderiam fazer em prol da causa que abraçaram. É o caso de Menahem Begin, primeiro ministro de Israel por muitos anos, que, inesperadamente, abandona seu cargo e se isola no mundo exterior. Entre as muitas suposições, julga-se que assim agiu após a morte de sua esposa. Temos ainda o famoso imperador Carlos V, da Espanha, no século XVI. Conquistou tantas terras que sobre elas o sol jamais se punha. Entrega seu trono a seu filho, Felipe II, e passa o final de sua vida num convento…

Na década de 60, presenciei, em praça pública, numa de nossas cidades, manifestação idêntica. Um pastor, que havia conseguido uma cadeira num legislativo estadual, reúne seus amigos e comunica que estava renunciando o seu cargo, sem explicações plausíveis.

Será isso uma coisa normal? Entendo que não, porque outros têm agido de maneira diferente, especialmente os servos de Deus que, esperando no Senhor, renovarão suas forças, subirão com asas e como águias voarão. Correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão. Porque Ele dá esforço ao cansado e multiplica as forças aos que não têm nenhum vigor, Is 40: 31 e 29.

Nas interrupções físicas, Deus tem dado muitas oportunidades. Cito, para glória de Deus, o exemplo da irmã Ester Josepetti, da segunda IPR de Maringá, de saudosa memória. Vítima de enfermidade incurável, por mais de seis anos enfrentou-a vitoriosamente. Jamais abandonou seus compromissos com a Igreja. Até mesmo no final de sua existência, quando a enfermidade dilacerava seus ossos e suas carnes, ela manteve-se firme e ativa. Muitas vezes apoiada em alguém, participava dos cultos, vigílias, reuniões de oração, campanhas, etc. Quando não mais pôde sair de sua casa, promovia ali as reuniões de oração, vigílias e cultos semanais. Só parou quando entrou para a glória.

Não posso também esquecer-me da irmã Soledade, da IPR de Arapongas, de saudosa memória, que fez de sua cadeira de rodas o seu púlpito, de onde pregou o evangelho e louvou a Deus por muitos anos.

Peço vênia para relatar minha experiência. No ano de 1979, o crepúsculo chegou para mim, através de uma insuficiência renal crônica. Os médicos declararam que minha enfermidade não teria mais cura. Tive de depender, daquela época em diante, de uma máquina de hemodiálise. Grande foi minha tristeza. Estava à frente do Seminário, presidia o Presbitério de Curitiba e fazia campanhas nas Igrejas locais e palestras nos encontros de avivamento.

O que fazer? Parar? Fui aconselhado a assim agir. Mas o Espírito Santo, que habita em mim, levou-me a clamar ao Senhor para que não permitisse que isso acontecesse. Foi essa a minha oração. Como resposta, o Senhor disse que iria me sustentar e mostrar aos médicos o seu poder. Estava, naquela época, com cinquenta e cinco anos. Dez anos são passados e continuo à frente do Seminário como professor e diretor, presido o Presbitério de Cianorte, a Associação Evangélica Educacional Beneficente e participo das reuniões administrativas da Igreja Renovada. Presido, também, anualmente, o Encontro de Avivamento de Cianorte e, ainda, prego nos encontros de avivamento e de obreiros.

Continuo com o meu tratamento, agora, em casa, orando para que Deus não permita que eu venha parar antes do tempo. No decorrer desses de anos, enfrentei crises que me levaram as forças, mas continuo trabalhando.

Para você, caro leitor, que está enfrentando, ou vai enfrentar o crepúsculo, aconselho a não parar. Procure fazer alguma coisa e Deus lhe abrirá as portas. Não se deixe vencer, mas reaja diante do período crepuscular.

Faça sua a oração de Davi: Agora, também, quando estou velho e de cabelos brancos, não me desampares, ó Deus, até que tenha anunciado a tua força a esta geração e o teu poder a todos os vindouros. “Não me rejeites no tempo da velhice; não me desampares, quando for acabando a minha força; porque na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e florescentes”, Salmo 71:9, 18, 92:14.

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Fonte: Jornal Aleluia de setembro de 1989
Reproduzido na edição especial, em homenagem ao Pr. Palmiro, de julho de 1991

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