CONEXÕES DA VISÃO HOLÍSTICA DA IGREJA

Uma análise de Êxodo 3:1-20 alusiva ao dia da IPRB

O terceiro domingo de julho é o dia da IPRB, uma igreja que busca caminhar sob uma visão holística. Para entendermos as implicações de caminhar sob uma visão holística, precisamos conhecer a origem da palavra “holismo”. Vem do grego “hólon”, que significa inteiro, integral, totalidade. Trata-se de um conceito criado por Jan Christiaan Smuts, em 1926, que o descreveu como a “tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um ‘todo’ que é maior do que a soma das suas partes”. Fala-se muito, hoje, em visão holístca da educação, da administração, da organização empresarial, da qualidade de vida, etc.

Em qualquer um destes casos, o termo designa o trabalho conjunto, que tem em comum a personalidade global da pessoa, seja ela uma criança ou um adulto, dentro do seu contexto de convívio. Em se tratando de igreja, devem ser consideradas todas as facetas do ser humano, não apenas o fator espiritual, mas também os aspectos físicos, emocionais, racionais, sociais e até mesmo as responsabilidades de cidadania.

A história de Israel está relacionada com à da igreja. O chamado, a vida, as experiências, as lutas e as perseguições do povo de Deus, desde a sua estada no Egito até a conquista da terra prometida, aplicam-se à vida e aos desafios da igreja de Jesus neste mundo. Aliás, a história de Israel é um protótipo da trajetória da igreja, uma vez que ela é vista por muitos estudiosos do Antigo Testamento como a vinha do Senhor. No entanto, vale lembrar que o conceito de igreja, propriamente dito, nasceu a partir do Novo Testamento.

Quanto a Israel, Deus tinha um plano holístico para esse povo, que habitou no Egito, por ocasião do governo de José, mais ou menos nos anos 1490 a. C. José morreu e outro rei que não o conhecera se levantou no Egito (Êx 1:8). Com o crescimento dos hebreus, os egípcios usaram de astúcia e passaram a escravisá-los (Êx 1:11-14). Por 430 anos foram subjugados e maltratados. O sofrimento era tamanho que o clamor desse povo chegou ao Senhor (Êx 3:9).

Deus decide mudar a história desse povo. Ele não queria apenas tirá-lo do Egito. A dimensão de sua ação em libertá-los iria muito além daquilo que imaginavam. Deus queria trabalhar todas as facetas da vida de Israel, a ponto de fazer dessa nação a principal conexão do advento de Cristo ao mundo. Todavia, sua intervenção se daria por meio de algumas conexões aplicáveis à vida da igreja, cuja missão é pregar o evangelho holístico (integral) a todas as etnias (Mt 28:19). Vejamos quais são.

Conexão humana: a visão do líder

A visão holística da igreja passa pela conexão humana. Com tirania, os egípcios faziam servir os filhos de Israel, tornando-se grande o sofrimento (Êx 1:13). O capítulo três de Êxodo deixa em evidência que Deus tinha um plano para livrar os israelitas dessa escravidão, que perdurou por mais de quatro séculos (Êx 12:40). No entanto, Deus não podia descer à terra para livrá-los. Ele precisava se conectar com o seu povo, por meio de um representante, que fosse capaz de receber suas ordens e executá-las. Então, o que fez Deus?

Manifesta-se a Moisés no monte Horebe: “Apareceu-lhe o Anjo do Senhor numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia” (Êx 3:2). A teologia denomina esse fato de teofania ou aparição de Deus. Foi um momento inusitado na vida de Moisés. Talvez essa experiência seja uma das mais comoventes de sua vida. Não há dúvida de que foi uma visão divina, que revolucionou a história da humanidade.

Não bastava a visão da sarça ardente. Moisés precisou conceber a visão de Deus. Ele seria a conexão entre Deus e o povo que sofria. Foi dessa forma que Javé realizou seus intentos com a humanidade. Isso não significa que ele dependa do homem. No entanto, Deus se manifestou em muitos momentos da história usando homens e mulheres que se dispuseram para o seu serviço. O êxito da visão holística da igreja passa primeiro pela conexão da visão e experiência do líder. Ele é o “carro-chefe” para liderar os projetos de Deus na terra.

Conexão motivadora: o alvo almejado

Como é que o povo iria crer em Moisés? Qual seria sua proposta para que pudessem acreditar que era o enviado de Deus? Qual seria o fator motivador para que os israelitas acreditassem em seu discurso? Deus lhe disse do meio da sarça que havia ouvido o clamor do povo e que haveria de livrá-lo da escravidão e conceder-lhe uma terra abençoada: “Por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel” (Êx 3:8).

O alvo de Deus era tirar os israelitas do Egito e levá-los a um lugar seguro, farto e produtivo, onde pudessem desfrutar de suas riquezas. A proposta de Deus não seria a troca de seis por meia dúzia. Seria algo estupendo e incalculável. Eles não tinham ideia da grandeza da promessa divina. Tanto é que depois dos 40 anos de peregrinação, quando as gerações sucessoras estavam prestes a tomar posse da bênção, ouviram dos espias estas palavras: “Verdadeiramente a terra mana leite e mel” (Nm 13:27)

Toda visão precisa ser movida por um objetivo. Somos peregrinos nesta terra (1Pe 2:11), e aqui não é o nosso descanso: “Resta um repouso para o povo de Deus” (Hb 4:9). Portanto, o cristão deve estar ciente de que está de passagem por este mundo. Isto é, precisamos nos firmar nas palavras de Jesus sobre o nosso alvo almejado: “Não acumuleis para vós outros tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde ladrões arrombam para roubar” (Mt 6:19). Essa é a esperança do salvo em Cristo Jesus!

Conexão coletiva: o esforço de todos

Além de Moisés, como o líder principal, outras pessoas estariam comprometidas com o projeto divino. Para isto, Deus elegeu Arão, irmão de Moisés, como seu assessor para falar a Faraó, (Êx 4:27,28). Mas além destes, outros líderes também precisavam vestir a camisa: “E ouvirão a tua voz; e irás, com os anciãos de Israel, ao rei do Egito e lhe dirás: […] agora, pois, deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto, a fim de que sacrifiquemos ao Senhor, nosso Deus” (Êx 3:18).

Interessante que a conexão coletiva ainda se estenderia a toda a congregação dos israelitas. Todos deveriam se engajar ao projeto de libertação da escravidão egípcia, tanto homens quanto mulheres: “Fala agora aos ouvidos do povo que todo homem peça ao seu vizinho, e toda mulher à sua vizinha peça objetos de prata e de ouro” (Êx 11:2). Perceba o leitor que todos teriam de colocar a mão na massa, para que o plano divino fosse realizado. O projeto de Deus era para a coletividade israelense e não apenas para Moisés e Arão.

A ação conjunta de qualquer grupo proporciona caminhos de solução em todos os sentidos. A participação é fator importante para o êxito de qualquer projeto da igreja, como o PESC, por exemplo. Todos somos testemunhas de conexão divina para a salvação dos pecadores, em qualquer parte do mundo (At 1:8). Por isso, não há como desmerecer a força da coletividade na família, na empresa, na escola, na igreja, etc. Há um provérbio africano que diz que “quando o rebanho se une, o leão vai deitar com fome”. Pensemos nisso!

Conexão espiritual: a unção do Senhor

Por fim, para que a igreja tenha uma visão holística de 180 graus de alcance, torna-se indispensável a unção do Senhor. Aqui está o ponto conclusivo desta reflexão. Não há como servir ao Senhor sem essa prerrogativa espiritual. O primeiro ato de Moisés frente a Faraó, segundo as palavras do Senhor, seria a realização de prodígios: “Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todos os milagres que te hei posto na mão” (Êx 4:21). A unção de Deus estava na vida de Moisés.

A conexão espiritual é a fonte de alimentação entre nós e Deus. Unção fala de oração, comunhão, adoração, consagração e vida com Deus. Moisés estava diariamente conectado com Deus. O Senhor lhe deu uma unção tão grande que sua vida exalava poder. Muitos milagres foram realizados no seu ministério. As dez pragas do Egito são provas do poder de Deus na vida desse homem (Êx 7 a 11). De nada adiantaria a visão da sarça ardente se Moisés não cresse em Deus.

No Novo Testamento, a unção está relacionada com o derramar ou a plenitude do Espírito na vida do cristão (Lc 24:49). Há quem diga que ninguém pode ser 100% na vida ministerial se não for cheio do Espírito. Por isso, mais do que nunca, necessitamos da unção de Deus. Sem ela nossos objetivos se perdem em meio aos constantes desafios da vida. Mas, com a unção, qualquer problema se torna presa fácil da ação e intervenção divinas. Que sejamos cheios do Espírito Santo, para que sejamos uma igreja diferenciada.

O rei conta com você!

Na primeira guerra mundial, um moço foi levado ao hospital, sofrendo ferimentos em quase todo o corpo. Em grande agonia, suplicava à enfermeira que lhe desse algo para dormir, para jamais acordar. Ela se recusou a atender ao pedido, e ele começou a implorar ao médico: “Tenha compaixão de mim. Faça com que eu durma. Por que devo viver? Estou completamente inutilizado. Não posso mais servir à pátria nem ao próximo. Dê-me um alívio”.

Quando o médico também se recusou, rogou que escrevessem ao rei, pedindo licença para que pusessem fim aos seus sofrimentos. Para apaziguá-lo, o médico escreveu a carta, contando o caso do soldado valente que fora vencido pela dor. A resposta do rei para o soldado foi: “O rei conta com você!” Assim, o soldado foi encorajado e lutou para viver. “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4:7).

Pr. Advanir Alves Ferreira
Presidente da IPRB