A dinâmica da cristologia integral na oração sacerdotal de Jesus – Junho/2017

Uma análise bíblico-pastoral da oração
de despedida de Jesus, em João 17: 1-26,
alusiva ao Dia do Pastor

Prega-se muito nos púlpitos das igrejas sobre o tema Missão Integral ou Missão Holística. Ou seja, a missão que se preocupa com o ser humano por completo: corpo, alma e espírito. Segundo o missiólogo René Padilla: “A igreja que se compromete com a missão integral entende que seu propósito não é chegar a ser grande, rica ou politicamente influente, mas sim encarnar os valores do reino de Deus e manifestar o amor e a justiça, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário”.

Apesar do termo “integral” não configurar na Bíblia, ele está amplamente presente em diversos conceitos teológicos, inclusive na Cristologia, parte da teologia que estuda a natureza de Cristo. Então, o que seria Cristologia Integral nesta reflexão? A associação do termo “integral” à Cristologia assume um sentido de completude, considerando que Jesus intercede irrestritamente por seus discípulos, que haveriam de enfrentar o desafio de fazê-lo conhecido neste mundo (v. 23).

A dinâmica da Cristologia Integral na oração Sacerdotal de Jesus leva em conta todas as dimensões da trajetória ministerial de seus discípulos neste mundo, que se inicia com a conversão aos seus ensinos e doutrina e termina com a promessa da vida eterna com Jesus. Isso é maravilhoso porque, enquanto estivermos nesta terra, podemos estar certos de que jamais seremos desamparados por ele (Jo 16:33).

Jesus Cristo, o filho do Deus, veio a este mundo para exercer o tríplice ofício: rei, profeta e sacerdote. Isso se aplica tanto ao seu estado de humilhação como de exaltação. Como Rei dos reis e Senhor dos senhores, ele governa o mundo e protege o seu povo do maligno. Como Profeta, nos revela a vontade e a pessoa do Deus todo-poderoso. E como Sacerdote eterno, ofereceu a sua própria vida em sacrifício e está à destra de Deus intercedendo pela igreja na terra.

Na oração sacerdotal (João 17:1-26), antes de sua partida deste mundo, Jesus ora em favor dos seus discípulos e daqueles que haveriam de crer nele. O que está em destaque nesse texto é o seu ofício sacerdotal: ele se coloca diante do Pai e intercede por seus discípulos. É grande o efeito de sua intercessão, a fim de manter os seus escolhidos salvos do poder de Satanás e guardá-los de todo o mal. Diante disso, qual a dinâmica de sua oração nesse texto? O que ele pede ao Pai pelos discípulos e por nós?

NOSSA PROTEÇÃO

Essa é uma promessa maravilhosa. A certeza de sua proteção, após a sua morte, ressurreição e assunção aos céus: ”Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (v. 15). Jesus está demonstrando com isso total interesse e preocupação, se assim podemos dizer, em nos ver protegidos de todo o poder maligno. A convicção da proteção divina foi o pedido de Moisés para continuar seu pastoreado no deserto: “Se a tua presença não for comigo, não nos faça subir deste lugar” (Êx 33:15).

O que vale a vida cristã sem a proteção de Jesus? Qual seria o seu sentido? Talvez nenhum, porque a presença de Jesus nos dá segurança em todos os sentidos. Por isso, podemos confiar totalmente nele, uma vez que é o nosso Sumo Sacerdote e que se coloca constantemente diante do Pai celestial, pelo seu povo. Neste mundo vil e de tantas injustiças, o que todos queremos e precisamos é ser protegidos. Não há dúvidas de que o ministério pastoral sem o cuidado de Jesus não compensaria.

NOSSA SANTIFICAÇÃO

Além da proteção, Jesus pediu ao Pai que santificasse seus discípulos na verdade da sua palavra: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (v. 17). Não temos dúvida de que a vivência da Palavra de Deus tem sido o efeito purificador da nossa mente e coração. Ler e aplicar diariamente os ensinos da Palavra em nossas vidas, para que tenhamos uma vida pura e santa diante de Deus e dos homens é extremamente essencial. Sem santificação ninguém poderá ver o Senhor (Hb 12:14).

A dinâmica da Cristologia Integral nessa oração passa pelo crivo da santificação, que sempre foi o termômetro de Deus para o sucesso ministerial. Quer dizer, essa prerrogativa bíblica foi, também, uma exigência divina ao tempo do Antigo Testamento: “Pois eu sou o Senhor, o vosso Deus; consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11:44). Portanto, a súplica de Jesus pela santidade de seus discípulos é, simplesmente, uma reafirmação daquilo que Deus sempre quis e desejou de seus servos no AT.

NOSSA MISSÃO

Jesus não apenas nos deu a incumbência de pregarmos o evangelho a toda criatura (Mc 16:15), mas intercedeu por esse propósito divino: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (v. 18). Com isso, temos o compromisso de sermos o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5:13-16). Precisamos cumprir efetivamente a missão de pregar o evangelho sem tentar escapar do mundo nem evitar os relacionamentos com os não cristãos, pois fomos enviados para levar a salvação aos perdidos.

É muito interessante a sequência dos argumentos na oração de Jesus. Primeiro, suplica por nossa proteção. Depois, roga ao Pai pela santificação dos seus discípulos. Com isso, diz ao Pai que eles estão preparados para ser enviados à Seara (Mt 9:37,38). Portanto, cumprir o “ide” e fazer discípulos de todas as nações (etnias), estando preparados e tendo certeza de sua presença, será sempre uma tarefa frutífera e consolidada: “E certamente estou convosco todos os dias, até consumação do século” (Mt 28:20).

NOSSA UNIDADE

Unidade é a máxima do sucesso de qualquer segmento, especialmente da vida cristã. Sabendo dessa verdade, Jesus intercede pela unidade de seu povo: “A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós” (v. 21). Ele deseja e quer a nossa unidade para que o mundo creia nele. Temos de priorizar a unidade na igreja, para que ela seja uma testemunha poderosa da realidade do amor de Deus. A falta desse ingrediente, principalmente na liderança, prejudica a comunhão e o trabalho de evangelização.

A unidade precisa começar pela cabeça, ou seja, pela liderança. Líderes unidos, liderados unidos; líderes desunidos, liderados desunidos. Infelizmente será sempre assim, pois o reflexo de uma liderança unida, ainda que as diferenças existam, o que é natural em qualquer engrenagem, será sempre contemplada com os frutos dos alvos estabelecidos. Não nos esqueçamos da figura do corpo usada por Paulo para ilustrar a unidade da igreja: “Pois há muitos membros, mas um só corpo” (1Co 12:20).

NOSSA ETERNIDADE

Por fim, Jesus faz o seguinte pedido em sua oração: ”Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste” (v. 24). Na verdade, ele está nos levando a pensar nos propósitos de Deus para com o homem, desde o jardim do Éden. Deus nos criou para vivermos eternamente nesse lugar especial. No entanto, o pecado roubou do ser humano essa prerrogativa, levando-a ao sofrimento e destruição total (Gn 3). Mas Jesus, um pouco antes de morrer na cruz do Calvário, deixa claro que quer os salvos juntos dele.

A vida além-túmulo é a esperança dos salvos. Paulo diz que “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15:19). Podemos ter a firme convicção de que Jesus quer nos arrebatar e nos levar para estar com ele em sua morada celestial (1Ts 4:16,17). Alegremo-nos e nos regozijemos por tão grande privilégio que há de acontecer em breve. Como é maravilhoso sabermos que Jesus, nosso grande intercessor junto ao Pai Celestial, orou por nossa proteção, santidade, missão, unidade e eternidade.

PARA REFLETIR!

Não estamos sós! No inverno de 1864, nos EUA, uma velhinha cristã dirigiu-se à Casa Branca para falar com Abraham Lincoln. Segurou a mão do grande presidente e apertou-a fortemente. Queria contar-lhe um segredo: “Amigo Abraham, você não está só, estamos todos orando por você. Você não pode fraquejar, pois o coração de todo o povo está com você. O Senhor mesmo foi que lhe colocou neste lugar. Você é amado pelo povo como nunca antes outro homem o foi. Deus está com você e o povo atrás de você!”

Nós, ministros de Deus, temos a certeza de que não estarmos sós (Is 43:1-5 e Jo 14:18).

A complexidade da voz profética da igreja evangélica brasileira – Agosto/2016

Uma reflexão bíblico-teológica
alusiva ao dia da Independência do Brasil

“Meu filho, tema a Deus, o Senhor, e respeite as autoridades.
Não se envolva com as pessoas que se revoltam contra elas,
pois num instante elas podem se arruinar”
Pv 24:21

Que o Brasil é um país abençoado por Deus, disso não temos dúvida alguma. Somos uma terra fértil e produtiva, um povo simpático e querido por todos no mundo inteiro. Apesar do momento político e econômico da nação brasileira não ser completamente favorável a ninguém, somos um país sem guerras, sem terrorismo e sem derramamento de sangue. Por certo, o leitor já ouviu falar que Deus é brasileiro. Mas seria Deus brasileiro?

A crença popular verde-amarela de que Deus é brasileiro não passa de um bairrismo nacional que acaba descontraindo as pessoas. Estamos certos de que Deus é divino e não humano-brasileiro; eterno e não passageiro; celestial e não terreno, espírito e não matéria; santo e não contaminável; grande e não pode ser contido; é majestoso e está entronizado entre os querubins e os serafins. Deus tem o governo absoluto do mundo que criou em suas mãos.

O Brasil pertence a Deus! Esta tem sido a oração de milhões e milhões de cristãos evangélicos brasileiros. Não há dúvidas de que tudo poderia estar ainda pior em nossa nação, se não fosse a presença da igreja, como agência de Deus neste mundo. A data comemorativa de 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, é um momento oportuno para refletirmos sobre alguns conceitos bíblico-teológicos concernentes à complexidade da voz profética da igreja frente ao contexto político-econômico de nossa nação.

A HONRA ÀS AUTORIDADES

Honra e respeito às autoridades constituídas por Deus é o imperativo bíblico-salomônico: “respeite as autoridades”. O apóstolo Paulo afirma que toda autoridade, seja ela eclesiástica ou não, é constituída por Deus (Rm 13:1). Ou seja, toda autoridade tem o pleno consentimento divino para o exercício de suas funções. A doutrina bíblico-teológica da providência divina ensina que Deus é quem permite ou impede tanto o querer como o efetuar: “Porque Deus é o que opera em vós, tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”, (Fp 2:13).

Portanto, negligência, desonra e desrespeito a qualquer tipo de autoridade é um princípio antibíblico, que foge da legalidade de um viver coerente para com Deus, com o próximo e consigo mesmo. O papel da igreja é fazer a diferença, para que o Brasil tenha sempre a proteção divina. Agora, em se tratando da submissão às autoridades políticas brasileiras, é bom seguirmos os trilhos dos ensinos bíblicos que regem a conduta cristã, lembrando sempre que somos o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5:13-14).

A NATUREZA DA POLÍTICA

O ser humano é por natureza político. A política está presente na família, na escola, na igreja, no trabalho e em quase todos os ambientes e segmentos em que estamos inseridos. Segundo Leonardo Sampaio, educador político, existem diferenças evidentes entre política, ser político e fazer política. Política se traduz pela ciência, arte ou meio de fazer o bem comum ou promover a felicidade humana. Ser político é fazer valer os direitos dos cidadãos e o dever do Estado, conforme prevê a Constituição. É esse tipo de político que se constitui como verdadeira autoridade quando eleito ou nomeado para ocupar um cargo público.

Agora, fazer política é outra questão, que exige da pessoa que vai exercer um cargo ou mandato o senso da ética, do compromisso, da dignidade, da honestidade e do conhecimento da função. Talvez esses aspectos constituam o cerne da problemática atual da política brasileira. No Antigo Testamento e na antiguidade, os reis e os juízes (1390 a 1030 a.C.) de Israel tinham compromisso exclusivo com a nação, pois lutavam (literalmente) e faziam prevalecer os direitos do povo. São de políticos assim que precisamos na atualidade. Autoridades que defendam e façam prevalecer os direitos da população.

A ANTIGUIDADE DA CORRUPÇÃO

O termo corrupção, do latim “corruptus”, significa o “ato de quebrar aos pedaços” ou decompor e deteriorar algo. Seria o efeito de corromper alguém em troca de algo, com a finalidade de obter vantagens em relação aos outros, usurpando-se de meios ilegais e mentirosos. Que a corrupção é tão antiga quanto ao pecado, disso não temos dúvidas. Foi dessa forma que serpente agiu com os habitantes do jardim do Éden e continua agindo em nossos dias. Ela usou da artimanha corrupta para ludibriar Eva e a seu marido, Adão: “Porque Deus sabe que no dia em comerdes se vos abrirão vossos olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3:5).

A proposta de “ser como Deus” pareceu muito vantajosa à mulher: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer […], tomou-lhe do fruto e comeu e deu também a seu marido, e ele comeu” (Gn 3:6). A corrupção será sempre o resultado de uma ambição desenfreada, da mentira e do descumprimento do pacto de confiança com Deus e com o próximo. Propostas de barganha, negociações, licitações fraudulentas, serviços facilitados e propinas são notícias veiculadas diariamente nas mídias em geral. A igreja não pode compactuar com esse modelo de vida, (Ml 3: 18 e Ef 2: 1-3).

A VOZ DOS PROTESTOS

Corrupção gera déficit. Déficit gera crise. Crise gera desemprego. Desemprego gera descontentamento e protestos. Esse foi o cenário pós-Éden, depois das “sanções penais” sofridas pela humanidade devido à desobediência corrupta: tristezas, brigas, dores, sofrimento, trabalho dobrado, fadigas, improdutividade da terra e demissão do paraíso (Gn 3:15-24). Antes da maldita corrupção no jardim, era tudo muito bom. Deus andava pelo Paraíso, conversava com seus habitantes, a terra produzia abundantemente e não existiam cardos nem espinhos (Gn 3:17-10). O contexto político-econômico dessa cidade era uma maravilha.

No entanto, a ambição levou o casal e toda a humanidade a uma vida de intenso trabalho e calamidade. A partir de então, surgiram as manifestações como forma de protestos. A construção da Torre de Babel, por exemplo, foi uma expressão de descontentamento da população daqueles dias, que serviu como álibi de preservação da vida. Parecia uma forma correta de manifestação pública. Mas, na verdade, não passava de um ato de rebelião, que levou Deus a intervir na história, anulando os planos daquele povo (Gn 11:1-9). O cristão pode reivindicar seus direitos, sim, desejar galgar novas posições, adquirir riquezas, etc., mas desde que tudo esteja de conformidade com a Palavra de Deus, não se envolvendo com aqueles que estão descontentes com as autoridades.

O FATOR DA COMPLEXIDADE

Mas nem tudo está perdido, porque apesar de Deus não ser brasileiro, ele faz a chuva cair sobre os bons e os maus (Mt 5:45). Porém, o contexto emaranhado em que vive o Brasil criou uma complexidade na vida do brasileiro, gerando insegurança, medo, desemprego, maior número de assaltos e criminalidade. O fator da complexidade da vida diz que ninguém é dono de sua própria vida, e que todos estamos sujeitos ao Estado. Segundo os estudiosos, o brasileiro sofre de personalidade múltipla, ou seja, ele exerce diversos papéis sociais ao mesmo tempo, tais como: eleitor, militante, trabalhador, contribuinte, etc.

A complexidade da vida se torna ainda mais difícil quando sabemos que temos direito a uma boa educação, assistência médica adequada e melhor qualidade vida, o que não condiz com nossa realidade. Sem falar das pesadas cargas tributárias que as empresas e indústrias têm de pagar para se manter no mercado de trabalho e gerar empregos à população. Mas nem por isso a igreja deve sair às ruas para protestar contra os governantes e se aliar aos revoltados, pois essa não é a forma coerente para que ela exerça sua voz profética.

Ademais, a igreja deve e precisa pagar o preço de uma vida de oração, intercessão, consagração, e denunciar, dentro dos padrões bíblicos e da legislação brasileira, as mazelas que destroem nossa nação (1Tm 2:1-4). À igreja compete o papel de ser presente e não ausente; atuante e não dormente; atenta e não despercebida; disposta e não indisposta; preparada e não acomodada; quente e não morna; ativa e não passiva.

Ela precisa ser o termostato de Deus neste mundo, sem jamais se omitir ou terceirizar sua missão de transformar o mundo pela Palavra de Deus (Mt 28:18-20). Que Deus abençoe a todos e o nosso Brasil.
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Fonte: Jornal Aleluia nº 420, agosto/2016, p. 2

A arte de falar a mesma língua no contexto bíblico-ministerial – Junho/2016

“Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo,
que faleis todos a mesma coisa e que não haja
entre vós divisões; antes, sejais inteiramente
unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer”
1Co 1:10

Naturalmente o leitor já tenha ouvido esta frase: “Aqui,
todos precisam falar a mesma língua”. Em palestra, um gerente
de uma rede de lojas diz aos seus funcionários: “Precisamos ser unidos,
não podemos ficar dispersos, temos de focar o mesmo alvo,
se é que queremos alcançar nossas metas financeiras,
conquistar novos clientes e continuar sendo a maior
rede de lojas do Brasil”.

Falar a mesma língua precisa ser a marca de nossa
identificação, pois esse é o imperativo de sucesso de qualquer
grupo que tenha um fim proposto. Seja na família, na escola,
no futebol, na empresa, na igreja, no trabalho,
em qualquer repartição ou segmento há sempre
a necessidade de se viver o espírito
de luta, munido pela união de um mesmo parecer
e disposição mental.
Contudo, ninguém discordaria de que não é nada fácil
exercitar essa “ginástica”, ainda mais dentro do contexto
eclesiástico-ministerial.

O apóstolo Paulo, ao se dirigir à igreja de Corinto com um discurso de urgência sobre a necessidade da unidade na administração e projetos da igreja, deixa evidente que havia entre os crentes dificuldade de se falar uma mesma língua. Esse fato estava trazendo sérios problemas para as lideranças locais e regionais, bem como provocando uma “linha de impedimento” no crescimento integral (orgânico, diaconal, conceitual e numérico) dessa igreja.

Com isso, surgiram dentro da igreja torcidas e bandeiras apostólicas sem precedentes, gerando partidos político-eclesiásticos, a ponto de irmãos se odiarem e guerrearem: “Refiro-me ao fato de um de vós afirmar: “Eu sou de Paulo”; enquanto o outro declara: “Eu sou de Apolo”; e outro: “Eu sou de Pedro”; e outro ainda: “Eu sou de Cristo! ” (1Co 1:12). Foi por essa razão que o apóstolo os chamou de carnais, invejosos, segundo os padrões deste mundo (1Co 3:3).

Hoje não tem sido diferente nas famílias, na política, nas denominações. Os fatos tomam dimensão bem mais rápido do que naqueles dias. Àquela época, o mundo em que a igreja de Corinto estava inserida era mais compacto, retraído e tímido. Não estamos dizendo que não havia violência, criminalidade, assaltos, corrupção, etc. O mundo foi sempre perverso, desde o início, após o pecado (Gn 3). O que estamos dizendo é que hoje tudo é mais veloz e dinâmico. Tudo se faz e refaz numa velocidade incrível.

As redes sociais e os meios de comunicação, que por sinal são uma bênção e têm seus valores, transformou o mundo numa “aldeia globalizada“, onde todos sabem de todos em qualquer lugar deste planeta em fração de minutos. No entanto, esse avanço tem trazido certos desvarios e constrangimentos, que prejudicam a obra de Deus. É sobre isso que gostaríamos de refletir neste momento, por ocasião do dia do pastor, segundo domingo de junho, uma vez que somos responsáveis pelo rebanho de Deus (Hb 13:17).

BÍBLIA E TEOLOGIA

A teologia existe porque a Bíblia é um livro invulnerável e inatacável. Se a Teologia discute sobre a existência de Deus e os fatos relacionados a ele e ao mundo, não há como desvincular um do outro nem tampouco fundamentar qualquer tese teológica sem o respaldo das Escrituras. Não é assim que temos visto hoje em dia, quando muitos tentam sustentar de qualquer forma suas correntes teológicas. Jesus disse que uma casa (teologia) sem fundamento (Bíblia), construída sobre a areia, não suportaria a chuva e a força dos ventos que soprariam contra ela (Mt 7:24-27).

Pregam-se, hoje, mensagens sem nenhuma fundamentação bíblico-teológica. Por isso, os pastores e líderes da IPRB precisam precaver-se com relação àquilo que ensinam nos púlpitos. Há muita discussão desnecessária sobre certos conceitos que não nos levam a lugar algum. O verdadeiro conhecimento bíblico é a essência de uma boa e sadia teologia bíblica. Deus disse pelo profeta Oséias que o seu povo errava por falta de conhecimento (Os 4:6). É tempo de pregar e ensinar usando a mesma linguagem.

TEOLOGIA E ECLESIOLOGIA

É bem verdade que a teologia bíblica não é um produto acabado. Se assim fosse, não existiriam discussões e especulações a seu respeito. Todavia, ela não deve ser banalizada, como ocorreu em algumas circunstâncias da história. Há quem diga que a teologia, de tempo em tempo, precisa ser reformulada. Essa é uma questão que tem sido alvo de debates acadêmicos e ministeriais. No entanto, sendo ou não verdade qualquer conjectura a respeito de seus conceitos, seus princípios bíblicos jamais poderão ser alterados.

A eclesiologia, por sua vez, que é o ramo da teologia que trata da doutrina da igreja, responsável por assuntos importantes, como o papel da salvação, sua origem, sua disciplina, sua forma de se relacionar com o mundo, seu papel social, as mudanças ocorridas, as crises enfrentadas, a relação com outras denominações e sua forma de governo (veja a Confissão de Fé da IPRB), deve ser orientada por uma teologia, essencialmente, bíblica, madura e equilibrada, e, por que não dizer, holística. Por isso, a IPRB crê e adota uma eclesiologia com diretrizes balizadas unicamente pela Bíblia, o que nos outorga o status de uma denominação séria e reconhecida pelos segmentos políticos, religiosos e sociais em geral.

ECLESIOLOGIA E UNIDADE

Se a eclesiologia é responsável pela conduta da igreja dentro dos trilhos de uma teologia sadia e equilibrada, a unidade, neste caso, é o resultado dessa engrenagem, que funciona como mola-mestra da igreja. Quer dizer, a unidade é o ponto-chave para que a igreja tenha êxito na missão de fazer discípulos de todas as nações, segundo as palavras do próprio Jesus: “A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. […] Eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados em unidade” (Jo 17:21 e 23).

Fica evidente no discurso de Jesus que a unidade move o corpo de Cristo. Sem ela o mundo é impedido de crer que Jesus foi o enviado do Pai, e não há como o corpo ter vida plena. Paulo deixa isso claro quando fala da igreja como corpo de Cristo: “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo (1Co 12:12). Portanto, entende-se que a unidade é parte essencial e indispensável, a fim de que os membros do corpo de Cristo sejam de mesma disposição mental e parecer.

UNIDADE E DIVERSIDADE

Por fim, aqui se complementa o processo da arte de falar uma mesma língua. A unidade é a característica dominante do corpo; e a diversidade, a cooperação no funcionamento. Parece não ser possível ter o mesmo parecer quando se trata de igreja. No entanto, na unidade todos são um e um são todos, porque o corpo precisa ser bem ajustado. Dentro da diversidade, todos não são todos, porque são membros diferentes que formam o corpo. Todavia, todos dependem de todos porque estão ligados uns aos outros no mesmo corpo.

Mas como explicar isso? O apóstolo Paulo dá a receita certa para esta pergunta: “Porque também o corpo não é só membro, mas muitos. […] O certo é que há muitos membros, mas um só corpo” (1Co 12:14,20). Portanto, a diversidade na unidade é uma realidade necessária, e não há como dizer o contrário. É na diversidade que as ideias opostas se acasalam e geram bons resultados. Além do mais, é bom lembramos que Deus nos criou únicos e é exatamente por isso que não seremos jamais iguais: “Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhes aprouve” (1Co 12:18).

Por isso, caros colegas, estejamos certos de que Deus colocou cada um nós em seu devido lugar no corpo, com uma função específica, o que é salutar para a igreja. Podemos, sim, caminhar harmoniosamente dentro da diversidade, tendo um mesmo parecer, como o apóstolo recomenda aos crentes de Corinto, respeitando o espaço psicológico uns dos outros, porque a igreja é de Deus, e não nossa. Uma das grandes virtudes do ser humano é ser submisso a Deus e aguardar o momento certo de ser usado por ele naquilo que for a Sua vontade.

Desta forma, desejamos que Deus capacite e abençoe a todos os pastores e pastores auxiliares da IPRB, dando-lhes muita graça e sabedoria. Que nossos pastores e suas famílias sejam, dignamente, reconhecidos como homens e mulheres que o Senhor escolheu para pastorear o rebanho divino.

LIÇÕES PEDAGÓGICAS CONCLUSIVAS

Diante de tudo que analisamos, vamos elencar algumas lições bíblico-pedagógicas, que nos propõem diretrizes para o uso comum de uma mesma língua no discurso ministerial e denominacional.

Lição 1: Nenhum projeto, seja ele espiritual ou material, terá sucesso se todos não se unirem para falar ou pensar uma mesma coisa.

Lição 2: Todo projeto precisa ter como propósito primeiro o Reino de Deus, e não do homem ou da instituição.

Lição 3: Quando não se fala uma mesma língua, na edificação de qualquer empreendimento, a tendência é que ele seja embargado por Deus.

Lição 4: Falar a mesma língua consiste na arte da unidade-diversidade, para que os pontos de vista tenham uma vista correta dos pontos.

Lição 5: Para se elaborar qualquer tipo de projeto, precisamos, antes de tudo, consultar e buscar a direção e a aprovação de Deus.