“E abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10: 34).
O dia 20 de novembro de 2024 marcou o primeiro feriado nacional da consciência negra em nossa nação. De uns tempos para cá, há uma luta acirrada contra o preconceito ou a injúria racial em todos os segmentos da humanidade, inclusive no religioso, suporte de todos os demais. Isto é, há uma busca constante pelo direito à igualdade em todos os aspectos e setores da sociedade. A igreja precisa abraçar essa causa, uma vez que ela tem a missão de pregar e viver a unidade na diversidade e a diferença na igualdade.
A Bíblia não se prende à discussão sobre a cor da pele, até porque este não é um aspecto que valoriza ou desabona o ser humano diante Deus (Jeremias 13:23), porque Ele não vê a aparência, mas o coração, que não tem cor (1Samuel 16:7). Para Deus, a pele não é padrão de julgamento e condenação. Esse fator não se converge em um diagnóstico de distúrbio da criação divina. Pelo contrário, isso mostra sua soberania e sabedoria, no sentido de que Ele nos criou diferentes e idênticos ao mesmo tempo, para sermos livres em tudo.
Por isso, sejamos brancos, pardos ou negros, ricos ou pobres, grandes ou pequenos, há em todos, sem sombra de dúvidas, uma marca distintiva que nos iguala diante do Deus-Criador dos céus e da terra. Ou seja, há alguns distintivos que funcionam como niveladores e deixam em evidência que os propósitos de Deus, ao criar o homem à sua imagem e semelhante, são a unicidade, igualdade e liberdade. Cor, raça, nacionalidade, cultura e religião são elementos indiferentes para Deus.
DISTINTIVO 1: SOMOS ÚNICOS
Deus nos criou únicos! Em um mundo com quase oito bilhões de pessoas, não há uma sequer igual à outra. O Salmo 139, verso 16, diz que: “Os teus olhos viram o meu embrião”. Não que o salmista esteja falando de forma direta que cada embrião em gestação seria uma pessoa única neste mundo. No entanto, segundo a ciência, a individualidade humana é estabelecida assim que o embrião é formado no ventre materno. Podem existir pessoas com o mesmo nome ou com os mesmos traços físicos, mas nunca iguais às outras em sua individualidade, seja macho ou fêmea.
A diferença entre uma e outra pessoa não está na cor da pele, mas em sua unicidade dada por Deus. Portanto, entre os bilhões de seres humanos que vivem no mundo, cada um recebeu uma forma especial de ser quando gerado no ventre de uma mulher: “Eis que te louvo porque me fizeste de forma especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza” (Salmo 139:14). Portanto, a voz da consciência de qualquer pessoa deve se estabelecer a partir deste princípio bíblico: somos todos seres únicos, criados por Deus para louvor de sua glória (Efésios 2:10).
DISTINTIVO 2: SOMOS IGUAIS
Mas como podemos ser únicos e iguais ao mesmo tempo? Sim, somos bilhões e bilhões de pessoas totalmente diferentes em todos os sentidos, mas ao mesmo tempo iguais. É claro que estamos falando de sermos iguais perante Deus, porque Ele não faz acepção de pessoas. Sim, para Ele, não há branco, pardo, amarelo, negro etc. Tanto judeu como grego são iguais diante do Todo-Poderoso (Romanos 10:12). As palavras “indiferença” e “diferença” não estão no dicionário divino. Ele nos criou únicos com o propósito de sermos iguais na sociedade. Mas como assim?
A lei divina é universal. O sol e a chuva são para todos, justos e injustos (Mateus 5:45). Somos iguais no quesito dos direitos e deveres, dos erros e acertos, nas preferências e rejeições, nas escolhas e decisões, no viver diário, desfrutando da natureza, que não é propriedade privada, e iguais, inclusive, na questão da morte. Todos haverão de prestar contas a Deus, seja o bilionário ou o pobre. A salvação está para todos, porque Deus quer que todos cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1Timóteo 2:4). Ninguém está acima de ninguém, porque todos somos pó e ao pó voltaremos (Gênesis 3:19).
DISTINTIVO 3: SOMOS LIVRES
Fomos criados únicos, iguais e, consequentemente, livres. Cada um, como diz o ditado popular, é dono de seu próprio nariz. Liberdade é direito de expressão, segundo a Constituição Brasileira. Podemos defini-la como um extenso caminho a percorrer. A velocidade e como se anda por ele é responsabilidade de cada um, ou seja, eu e você determinamos esse fator. Quando Deus soprou nas narinas de Adão o fôlego de vida, Ele estava dando ao homem o direito de ser livre. A decisão de Adão e de sua mulher, Eva, de comerem do fruto proibido, explica muito bem essa discussão teológica (Gênesis 3:1-6).
A voz da consciência (negra) pode ser traduzida pelo clamor ao direito de igualdade, em meio a uma sociedade egoísta, traiçoeira, desumana, sínica e corrompida pelos interesses próprios. Uma sociedade em que o ter vale mais do que o ser. Por isso, a voz profética da igreja precisa se manifestar nesse cenário caótico sócio-político e religioso, de forma a transformar vidas pelo poder e graça de Deus. Nada melhor e mais eficiente do que o evangelho, o poder de Deus para salvação de todo aquele que Nele crê, mediante a verdade (Jesus) que liberta o pecador (João 8:32; Romanos 1:16).
Diante disso, é preciso valorizar e aceitar as pessoas como elas são e não procurar usar as aparentes diferenças, como a cor da pele, a etnia etc., para justificar nossas opiniões e conceitos, mas contribuir para que o mundo de pessoas ao nosso redor tenha sabor e seja mais colorido, harmonioso, motivador e muito melhor para se viver. Que o dia nacional da consciência, seja ela negra, branca, parda ou vermelha, tenha sentido e efeito em nossa vida, fazendo-nos luzeiros de Deus neste mundo sem fé e esperança.
EVANGELHO E NEGRITUDE
Marco Davi Oliveira, pastor da Igreja Batista em São Paulo e coordenador da Organização Simeão, o Níger, no livro Missão Integral – Proclama o Reino de Deus, vivendo o Evangelho de Cristo, página 186, Editora Ultimato (2003), disse o seguinte sobre a consciência da cor de sua pele: “Hoje tenho consciência de que não sou moreno, pois isso é apelido; não sou escuro, porque escuro é túnel; não sou preto, porque preto é cor; não sou mulato, porque mulato vem da palavra mula. Sou negro. Aleluia! Eu sou negro”.