Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Efésios 4:26

A ira faz parte da experiência humana. Todos nós, em algum momento, somos contrariados, feridos, injustiçados ou frustrados e podemos reagir com indignação. A questão, portanto, não é simplesmente se sentimos ira, mas o que fazemos com ela e para onde permitimos que ela nos conduza.

Em Efésios 4:26, o apóstolo Paulo apresenta uma orientação muito importante: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira”. A Palavra de Deus reconhece que a ira pode surgir no coração humano, mas também nos adverte sobre o perigo de permitir que ela se transforme em ressentimento, amargura, vingança e destruição.

Este estudo nos estimula a olhar para a ira à luz das Escrituras, compreender sua origem, reconhecer os seus efeitos e aprender a lidar com ela de maneira que não se torne uma brecha para o pecado. Afinal, aquilo que começa como uma reação diante de uma situação pode, quando não tratado, transformar-se em um sentimento que destrói relacionamentos, prejudica a própria pessoa e entristece o Espírito Santo.

Que esta reflexão nos ajude a examinar o coração e a compreender que, somente pela graça de Deus e pela ação de Cristo em nossa vida, podemos vencer aquilo que tantas vezes tenta dominar nossa alma.

A verdade sobre a ira

A ira é claramente um atributo de Deus e uma experiência comum aos seres humanos, provavelmente de modo universal. Esta ira divina é vigorosa, intensa, consistente, controlada e, invariavelmente, uma expressão de indignação perante a injustiça. É necessário compreender a ira divina, caso desejemos entender a ira humana.

A Bíblia jamais crítica a ira de Deus, mas faz repetidas advertências contra a ira humana. Isto não é evidência de um duplo padrão. A ira contra a injustiça é reta e boa, tanto em Deus como nos seres humanos. Pelo fato de Deus ser sábio, soberano, poderoso, perfeito e onisciente, Ele jamais interpreta mal uma situação, jamais se sente ameaçado, não perde nunca o controle e fica sempre irado com o pecado e a injustiça.

Em contraste, nós humanos interpretamos mal as circunstâncias, cometemos erros de julgamento, reagimos na hora, quando nos sentimos ameaçados ou feridos e, às vezes, respondemos com atos de vingança e represália. Como resultado, a ira humana pode ser prejudicial e perigosa. Ela fornece uma brecha para Satanás, e somos advertidos a esse respeito: “Irai-vos, e não pequeis; não ponha o sol sobre a vossa ira”, Ef 4: 26. Com base nessa e noutras passagens bíblicas semelhantes, temos possibilidades de chegar a várias conclusões sobre a ira humana.

A ira humana é normal. Os seres humanos, criados à imagem de Deus, possuem emoções, inclusive a ira. Essa ira é uma reação necessária e útil, como aconteceu com Jesus, não sendo pecaminosa em si mesma. Paulo endossa essa posição: “Irai-vos e não pequeis…”, Ef 4: 26.

É lícito irar-se. Não devemos, no entanto, confundir a raiva, como outras disposições do coração, como o ressentimento, o ódio, a amargura, o senso de vingança. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” são as palavras com as quais o apóstolo completa o seu conselho, e não podemos esquecê-las.

Um alimento pode ser muito saboroso, mas se o deixarmos fora da geladeira por muito tempo, ele se estragará e envenenará quem o comer. Da mesma maneira, a raiva estagnada, a mágoa rancorosa, a ira sobre a qual o sol se põe nos envenenam. Precisamos encarar nossa ira e resolvê-la, antes que, abafada pela censura ou insuflada pelo orgulho, se transforme em rancor.

David Seamands diz que a raiva é uma emoção colocada por Deus no coração humano, e é parte da imagem de Deus no homem, para ser utilizada com fins construtivos.

A ira humana pode ser prejudicial. Da mesma forma que outras emoções, a ira pode ser destrutiva caso não seja manifestada de acordo com as diretrizes bíblicas, Ef 4: 26-29. Este texto torna muito claro que entristecemos o Espírito Santo através do amargor, indignação, cólera, gritos, injúrias e malícias, que são a hostilidade da alma.

Paulo, aos Gálatas 5: 20, coloca a ira, a dissensão e a indignação na mesma categoria dos crimes da embriaguês e das orgias dizendo: “eu vos previno, como já fiz, aqueles que praticam isso não herdarão o reino de Deus”.

A ira humana facilmente se torna pecaminosa. Quando começamos a defender nosso Ego, quando atacamos alguém ao invés de atacar o erro dele, quando a chama da ira é alimentada, ela se torna um fogo que destrói. Como dizem por aí: “Depois que o sangue sobe para a cabeça…”.

O alto preço da ira

O Salmo 37:8 diz: “deixa a ira e abandona o furor; não te impacientes; certamente isto acabará mal”. Três coisas acontecem durante um ataque de ira:

a. Alguns órgãos do corpo recebem mais sangue do que o necessário, enquanto outras partes sofrem deficiência do sangue. O cérebro, por exemplo, recebe grande quantidade de sangue, muito além do que necessita. Então fica comprimido, apertado dentro do crânio, provocando grande dor de cabeça. Outros órgãos recebem pouco sangue, causando grandes desarranjos. O estômago, por exemplo, fica com pouco sangue, seus músculos ficam tensos, provocando congestões, úlceras e outros males.

b. Algumas glândulas, durante um ataque de ira, produzem mais substâncias do que o necessário, lançando-as no organismo, especialmente no sangue, provocando manchas vermelhas no corpo.

c. A tensão muscular fica alterada, isto é, fica esticada como corda de violão. A ira pode levar a pessoa a um estado crônico de nervosismo e até a loucura.

Após um ataque de ira é comum a tristeza e a depressão. Grandes somas de dinheiro têm sido gastas com estes desajustes emocionais. Milhares de lares são desfeitos, muitas inimizades, brigas, crimes, prisões têm como motivo a ira. A raiva e o sentimento de amargura causam elevada tensão, a qual, por sua vez, produz o desequilíbrio físico.

O Dr. Martin Podovani (“Curando as Emoções Feridas”) afirma que, se a raiva oculta não for trazida à superfície e analisada, ressurgirá de alguma outra maneira. Aparece frequentemente sob a forma de um problema psicológico, físico ou psicossomático.

Muitas pessoas falam com frequência sobre seus males físicos como colite, dor no peito, perda de cabelo, dor de cabeça, úlcera. Mas o verdadeiro problema dessas pessoas pode ser a raiva com que deixaram de lidar, a raiva que foi sufocada, reprimida, evitada. Uma das principais causas associadas a alguns distúrbios mentais que envolvem rompimento com a vida e a realidade é a raiva não admitida ou examinada.

Considerações finais

A ira não precisa dominar a nossa vida. Deus nos criou com emoções e, por isso, sentir indignação diante de determinadas situações faz parte da experiência humana. O problema começa quando permitimos que a ira permaneça em nosso coração, alimentando a mágoa, o ressentimento, a amargura e o desejo de vingança. Aquilo que não resolvemos pode se transformar em um peso para a alma, prejudicar nossos relacionamentos e nos afastar da vontade de Deus.

Por isso, a Palavra de Deus nos adverte: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4:26). Não devemos guardar a ira, nem permitir que ela se transforme em um sentimento permanente. Precisamos levá-la à presença de Deus, reconhecer nossas limitações, liberar perdão e permitir que o Espírito Santo produza em nós domínio próprio, mansidão e amor.

Se a ira tem sido uma luta em sua vida, não desista. Há esperança em Cristo. Permita que o Espírito Santo trabalhe em seu coração e transforme aquilo que hoje parece impossível controlar. A ira pode ter ferido você, pode ter ferido outros através de você, mas ela não precisa determinar o seu futuro. Em Cristo, há perdão, restauração e uma nova maneira de viver.