Se eu digo: “As trevas, com certeza, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite”, até as próprias trevas não te serão escuras, e a noite é tão clara como o dia. Para ti, as trevas e a luz são a mesma coisa. (Salmo 139:11–12)
O Setembro Amarelo, criado no Brasil em 2015 a partir de uma campanha mundial iniciada em 2003, tem como símbolo a cor amarela em memória de Mike Emme, jovem americano de 17 anos que, em 1994, tirou a própria vida após restaurar um Mustang amarelo. Em seu funeral, familiares e amigos distribuíram fitas amarelas com a mensagem: “Se você precisar, peça ajuda”. Esse gesto se tornou o marco de um movimento que clama pela prevenção do suicídio, trazendo como mensagem central que a vida tem valor, pedir ajuda é coragem, e ninguém precisa enfrentar a dor sozinho.
O suicídio é influenciado por múltiplos fatores: físicos, psíquicos, sociais, culturais, econômicos e espirituais. Ele não está ligado à coragem, mas sim ao sofrimento intenso que leva a pessoa a acreditar que não existe outra saída. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 883 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo — número que supera a soma das vítimas de guerras, homicídios e desastres naturais. Somente no Brasil, em 2021, foram registrados 15.507 suicídios, embora a subnotificação ainda esconda parte da realidade.
Embora seja multifatorial, os dados epidemiológicos apontam que a imensa maioria das pessoas que tenta ou comete suicídio apresenta algum transtorno mental, sendo a depressão o mais comum. Trata-se de um distúrbio de saúde mental caracterizado por tristeza persistente, perda de interesse em atividades antes prazerosas e sintomas que comprometem significativamente a vida.
Precisamos falar urgentemente sobre esse tema — inclusive no meio cristão. O ser humano é biopsicossocioespiritual: compreender essa integralidade é essencial para lidar com o problema. Jamais devemos reduzir a depressão a frases simplistas como “falta de vontade” ou “falta de fé”. Cada pessoa é única, e o transtorno mental se manifesta de formas diversas, em intensidade e duração, exigindo acompanhamento adequado.
A Bíblia nos mostra personagens que enfrentaram profundas crises emocionais:
– Elias, o profeta cansado e desejoso de morrer (1Rs 19:3–4).
– Jonas, que mergulhou em frustração e sentimento de inutilidade (Jn 4:3).
– Os salmistas, que relataram momentos de extrema escuridão da alma (Sl 42:5; 38:6–8).
Servir a Deus não nos torna imunes à angústia. O próprio Jesus advertiu: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16:33). O consolo está em saber que não caminhamos sozinhos no vale da sombra da morte. Como Pastor amoroso, o Senhor nos guia e ilumina: não há trevas tão densas que Sua luz não possa alcançar. A fé não elimina as aflições, mas dá força para enfrentá-las.
Como seres integrais, não podemos negligenciar a ajuda profissional. Deus concede sabedoria aos homens para desenvolver ciência e cuidado. A psicoterapia, com sua escuta qualificada, auxilia na compreensão da origem do sofrimento, no trabalho com traumas e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento. Em muitos casos, é também necessária a medicação, pois somos seres físicos, com uma estrutura biológica que influencia diretamente nossas emoções e pensamentos. Alterações químicas e hormonais podem intensificar a depressão, e nesses momentos os fármacos são indispensáveis para restaurar o equilíbrio, reduzir sintomas severos e devolver clareza mental.
Não devemos temer falar sobre o suicídio: falar de maneira apropriada pode salvar vidas. Como afirma a Dra. Karen Scavacini: “As coisas não mudam se não falarmos sobre elas.”
No Brasil, organizações como o CVV (cvv.org.br) e o Instituto Vita Alere (vitaalere.com.br) produzem campanhas e oferecem apoio fundamental. O CVV – Centro de Valorização da Vida disponibiliza atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo chat online (www.cvv.org.br).
A igreja, como comunidade de fé, deve ser espaço de acolhimento e cuidado mútuo, expressando o amor de Deus de forma prática: promovendo debates, abrindo espaço para a escuta e incentivando a busca por ajuda profissional. Nossa Igreja Presbiteriana Renovada tem sido um modelo e já desenvolve um projeto de cuidado pastoral e o Projeto Renovar, voltado à saúde mental, auxiliando pastores e líderes, de modo que este cuidado recebido pelo líder se estenda a toda a membresia.
Reconhecer essas ajudas como bênçãos de Deus é essencial. Somos seres frágeis e necessitamos do Seu cuidado constante, pois só Ele restaura a alma aflita e cansada. O Setembro Amarelo nos recorda que cada um pode ser um instrumento de luz: olhar para o lado, perceber quem está em sofrimento e oferecer palavras de esperança. Como cantamos em nosso hinário, no hino Soldados somos de Jesus (nº 131):
“Se alguém cansado se encontrar,
Sem forças para pelejar,
O Senhor quer te ajudar
A vitória alcançar.”
Somos um exército de soldados da fé, chamados pelo Supremo Pastor a derramar compaixão e esperança sobre multidões que sofrem — e talvez uma dessas vidas esteja bem ao nosso lado.
Uma resposta
Parabéns meu amor pela excelente reflexão do setembro amarelo.