Palavras que sustentam existências

O Setembro Amarelo nos convida a refletir sobre a urgência do cuidado com a vida. Mais do que números ou campanhas, este é um chamado para olharmos para o ser humano em sua totalidade, reconhecendo que cada pessoa traz em si dores que, muitas vezes, permanecem ocultas. Promover saúde emocional significa criar condições para que essas dores possam ser ditas, escutadas e, aos poucos, transformadas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos, alguém tira a própria vida Estes números revelam que o silêncio em torno do sofrimento psíquico pode ser fatal. Por isso, quebrar esse silêncio e oferecer redes de apoio torna-se um compromisso não apenas individual, mas também comunitário e espiritual. Isso nos lembra sobre a importância de oferecer, como sociedade, respostas de acolhimento e cuidado.

Na prática clínica, sabemos que o sofrimento psíquico não é sinal de fraqueza, mas a expressão de conflitos internos e contextuais que o sujeito não consegue elaborar sozinho. A psicanálise nos ensina que colocar em palavras o que antes era apenas dor silenciosa já é, em si, um ato de resistência e de vida. Nomear o indizível abre caminho para a elaboração e a transformação.

À luz da bíblia, posso citar um exemplo dessa dinâmica de alívio por meio da fala quando o salmista descreve exatamente o movimento da angústia que cresce no silêncio e a necessidade de falar para que algo se elabore. “Mas, enquanto eu estava em silêncio…a angústia cresceu dentro de mim, quanto mais eu pensava, mais ardia meu coração; então decidi falar”. (Salmo 39.2-3).

A Palavra de Deus também nos lembra da força do cuidado compartilhado: “Levem as cargas uns dos outros e, assim, estarão cumprindo a lei de Cristo”. (Gálatas 6:2). Aqui, ciência e fé se encontram em um mesmo princípio: a vida se sustenta no encontro, no vínculo, no cuidado mútuo, no laço com o outro. Enquanto a clínica oferece espaço para a palavra e a escuta, a espiritualidade fortalece a esperança e o sentido de pertencimento por meio da Palavra, o Verbo encarnado.

É importante desmistificar a ideia de que espiritualidade e ciência não conversam. Ambas oferecem recursos valiosos para que o ser humano encontre sustentação diante da dor.

No cotidiano pastoral e clínico, vejo como uma pode iluminar a outra, sem se anularem, mas se complementando em favor da vida.

Por isso, para este tempo, o convite é duplo: olhar para si com responsabilidade e abrir espaço para o outro com empatia. Cuidar da saúde emocional significa investir em redes de apoio, cultivar práticas de autocuidado, fortalecer vínculos e buscar ajuda profissional quando necessário. Na igreja, isso se traduz em sermos comunidades de escuta, oração e acolhimento; na clínica, em espaços de elaboração e transformação.

Falar salva vidas. Escutar também. A vida é sempre maior do que a dor do momento, e reconhecer isso é um ato coletivo de esperança. Que possamos ser instrumentos de cuidado, sustentação e vida em abundância, para nós mesmos e para todos que Deus coloca em nosso caminho.

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