O cuidado pastoral à luz da tentação de Jesus no deserto (Mt.4.1-11) (PARTE 1)

Nesse texto, vamos refletir sobre a perspectiva do cuidado pastoral à luz da tentação de Jesus no deserto. Um dos grandes desafios de pastores e líderes na atualidade, é a necessidade de cuidado, enquanto cuida, pastorear enquanto é pastoreado, guiar enquanto é guiado. Isso se torna desafiador em nossos dias por diferentes fatores.

O primeiro fator vem da igreja, que desconsidera o pastor como uma pessoa que luta contra o pecado; que sofre os impactos da queda. Criou-se uma idealização sobre o fator pastor, que não é real. O segundo fator vem do pastor, que se vê, se enxerga, como um ser acima da igreja. E transmite a ideia de que é alguém de uma categoria diferente das ovelhas. Como se estivesse em outro patamar. Veja, o fato de ser o líder da igreja não o torna superior como pessoa a ninguém no corpo, até porque o ministério pastoral é um dom, uma função exercida por gente chamada por Deus.

Nesse cenário o caos se instala. Pastores e líderes esgotados, frustrados, amargurados, feridos, adoecidos emocionalmente, ansiosos, depressivos. Por essa razão, refletir sobre o cuidado pastoral à luz da tentação de Jesus é um convite para renovarmos o coração, a fim de discernirmos o cuidado do rebanho ao mesmo tempo que mantemos o coração vigilante diante do tentador.

Onde acontecem nossas batalhas? Quem é nosso referencial de pastor? De que maneira o tentador se apresenta para corromper nosso coração? Como apascentar o rebanho do Senhor ao mesmo tempo que precisamos ser apascentados? Como as muitas vozes desse mundo podem ser uma barreira? Como manter a fidelidade diante da espetacularização da vida e do ministério?

O relato da tentação de Jesus em Mateus 4.1–11 deve ser lido a partir de alguns pressupostos. O primeiro deles, é não ler essa narrativa como um teste moral, como se Deus quisesse testar Jesus moralmente, seria muito superficial. O segundo, é que essa leitura precisa ser realizada dentro da cena maior: batismo → tentação → ministério público de Jesus. Nesse sentido, a cena revela o padrão teológico de como o Reino de Deus avança em uma progressão do Antigo ao Novo Testamento. E finalmente, como o Filho de Deus pleno é revelado como referencial de vida e vocação.

Mateus escreveu seu evangelho destinado para a comunidade de judeus convertidos a fé em Jesus. Ele apresentou o ungido do Senhor como cumprimento da revelação do AT. Essa narrativa foi estruturada com cenas que trazem a memória o filho coletivo de Yahweh (Israel) que fracassou no deserto e sua vocação de revelar o Reino. Na narrativa do nascimento de Jesus até o batismo, fica evidente que Mateus está interessado em revelar o Messias prometido, o pastor de Israel, o Rei.

“E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel” (Mt.2.6;Mq.5.2).

Nesse sentido, a maneira como Jesus enfrenta satanás no deserto representa a batalha contra as forças do mal que operam no mundo, e tentam impedir o avanço do reino de Deus, e ao mesmo tempo, o modelo a ser seguido e copiado por pastores e líderes para vencê-las.  O Filho declarado por Deus no batismo, é também o Filho provado no deserto, que em seguida inicia seu ministério, e que por sua vez representa o padrão do líder, chamado, vocacionado e enviado para cumprir a missão de Deus no mundo caído.

Portanto, a tentação de Jesus pode ser lida e copiada como referencial para o cuidado pastoral, porque levanta três questões fundamentais para o exercício da vocação. Que tipo de pastor/líder escolhemos ser? Que tipo de ministério queremos realizar? E que tipo de vitória esperamos obter no ministério pastoral?

Mateus inicia a narrativa da cena, declarando que Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, para ser tentado pelo diabo, e ao término de seu jejum teve fome (Mt.4.1-2; Mc.1.12-13; Lc.4.1-2). Os sinóticos são unânimes em que o Espírito o levou para a experiência da tentação. A tentação é proposital porque na cena maior da história da redenção, o enredo deveria atravessar o deserto, a fim de que o Filho de Deus, vencesse satanás, e iniciasse um novo tempo de restauração e renovação da criação de Deus afetada pela queda.

Que tipo de líder escolhemos ser? (Mt.4.3-4)

Na cena Jesus tá sendo tentado a exercer sua vocação no mundo como um falso Messias. Tanto Adão, quanto Israel tinham sido reprovados no AT. Eles o foram por ceder a ideia de enxergar que a maior necessidade humana é satisfazer necessidades. A tentação da autossuficiência, de se precipitar e agir sem dependência.

Nesse estágio da tentação, Jesus recapitula o Adão que não foi criado para depender de si mesmo, e o filho de Deus coletivo (Israel) que buscou atalhos, que se distraiu, que foi autosuficiente. Tanto Adão, quanto o filho coletivo (israel) já tinham sido derrotados. Mas o Filho pleno de Deus se revelou na história da salvação para apresentar um padrão onde “nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede de Deus” (Dt.8.3).

A história da salvação tem um enredo que passa por inúmeros estágios no Antigo Testamento. Caos – Criação – Fracasso – Redenção – Nova Criação/Criação – Queda – Redenção – Nova Criação. Portanto, a manifestação de Jesus, o Filho de Deus configura, a revelação do Reino entre o JÁ/AINDA NÃO.

A tentação no ministério, passa pela ideia de que tipo de líder está por trás do título, da função, da ordenação. É o líder que obedece àquele que o chamou? Muitas vezes está na ideia de “use seus dons para resolver tudo sozinho”, é uma cultura do desempenho e da potencializaçãodo indivíduo, sem depender da Palavra do Senhor. Nessa lógica, muitos líderes têm se despersonalizado e perdido sua identidade de filho de Deus, e consequentemente, perdem o time da vocação.

Passam a se enxergar pelo impulso de “transformar pedra em pão”, sem refletir que antes do fazer, tem o ser.  Nosso primeiro chamado é para sermos filhos do Pai, chamados para obedecer ao Pai, ser guiado pela palavra do Pai, depender exclusivamente do Pai. Nossa identidade não é definida nem pelas realizações, nem pelas frustrações. Somos definidos pelo relacionamento restaurado com o Pai.

A tentação de Jesus no deserto foi um episódio reprisado. Ele estava diante de uma fronteira perigosa: que tipo de pastor iria pastorear o novo Israel? Essa questão se apresenta todos os dias em nossa caminhada. Que tipo de ser humano sou eu? Estou resolvido quanto a minha filiação? Sou um apascentador no reino de Deus? A resposta que o Filho de Deus deu foi citando o pacto.

“Ele te humilhou, fez que sentisses fome e te alimentou com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que o ser humano não vive apenas de pão, mas de toda a Palavra que procede da boca do SENHOR!” (Dt.8.3)

Esse modelo de Jesus, estrutura o exercício de nossa vocação. Que tipo de líder queremos ser? Um líder que depende da provisão do Senhor, do braço do Senhor e da força do Senhor, ou um líder que tem um coração inclinado para si mesmo e para satisfação material. Essa tentação é real em nossos dias. Chegamos a acreditar que o ministério se reduz a satisfação de necessidades materiais.

Esse é um tempo de revitalização do nosso coração. Ele quer alinhar nosso coração com o Dele. O sustento que necessitamos vem de sua palavra. Jamais conseguiremos exercer nosso chamado sem essa consciência. Então, o deserto na nova criação não fala de lugar, espaço, geografia, mas de um ambiente, do nosso interior, do nosso relacionamento com Jesus.

Curiosamente, Deus levanta Elias para exercer sua vocação. Em um tempo marcado por escassez, pelo caos, pela desobediência. Elias se movimenta para o ribeiro de Querite, depois a Serepta de Sidom, a casa de uma viúva, e por fim, para o Monte Moriá, em toda trajetória Yahweh o Sustentou (1 Rs.17-18).

(Continua…)

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