O trono da violência – Julho/2000

A expressão “trono da violência”
foi usada pelo profeta Amós (6: 3)
para falar de líderes políticos e religiosos
que desrespeitavam o direito do povo
para proteger seus próprios interesses.
Agiam de má fé, lesavam a parte mais fraca.
Todos precisavam calar-se diante deles

Caim matou Abel. Desde então, os relatos bíblicos mostram uma sociedade impregnada pela maldade. Quem lê o profeta Oseias (4: 2) vê em suas palavras os crimes retratados todos os dias nos jornais: “O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios.” Séculos antes de Cristo, a conduta de um povo que dizia conhecer a Lei do Senhor era vergonhosa.

A violência serve de cenário para a parábola do Bom Samaritano. Jesus refere-se à conduta dos salteadores que, após terem roubado tudo o que o homem possuía, o deixaram muito ferido e semimorto.

Violência que atemoriza a sociedade

Pessoas violentas promovem a insegurança da família e da comunidade. Recentemente um fato abalou o Brasil. Um homem seqüestrou um ônibus no Rio de Janeiro e, após diversas horas de tensão, o desfecho foi trágico. Uma senhora que estava sendo usada por ele como escudo humano foi baleada e morreu. Depois, morreu também o bandido, enquanto era levado ao hospital.

Assaltos a ônibus de turistas, roubos de veículos, seqüestros, crimes cometidos no trânsito, arrombamentos de residências, estupros são apenas alguns exemplos de como anda a criminalidade em nosso país. Há pouco tempo, a TV divulgou o seqüestro de um pastor no Rio de Janeiro. Com idade avançada, ele ficou vários dias em poder dos bandidos. Sem receber alimentação, ao ser resgatado seu estado de saúde era extremamente debilitado.

A população sente-se atemorizada, desamparada como parte mais fraca diante da ousadia dos bandidos e do poderio de suas armas. Os alarmes nos carros, as grades nas janelas, o seguro que se faz contra roubo são apenas alguns dos recursos que as pessoas usam para sentir-se um pouco mais protegidas e, assim, defender seu patrimônio.

Violência que fez o governo
pensar num plano emergencial

Preocupado com a segurança pública, recentemente o governo federal divulgou um plano que tem como objetivo diminuir a violência em nosso país. Alguns dos pontos mais importantes são os seguintes: suspensão, por seis meses, da emissão de registros de arma; criação de um fundo para financiar ações de segurança nos Estados; desbloqueio de verbas destinadas à construção de penitenciárias estaduais; projetos de reforma do Código Penal e do Código de Processo Penal; projetos que autorizem a infiltração policial em organizações criminosas e a ampliação do programa de proteção à testemunha.

Violência que recebe oposição da Igreja

A Igreja cristã é por natureza pacifista. No Sermão da Montanha, Jesus referiu-se aos pacificadores como bem-aventurados, porque serão chamados filhos de Deus, Mt 5: 9. A expressão “Deus da paz” é usada diversas vezes no Novo Testamento para referir-se ao Senhor. Veja, por exemplo, Rm 16: 20. Um dos requisitos para alguém ser líder eclesiástico já aos tempos do Novo Testamento é que tal pessoa não fosse violenta, 1Tim 3: 3.

Na história da Igreja Cristã, há eventos marcados pela violência. Um exemplo foi o período da chamada “Santa Inquisição”. Atitudes violentas, no entanto, não têm nada a ver com a essência do Cristianismo e do Evangelho.

O melhor caminho para diminuir a violência

Um plano de combate à violência é, sem dúvida, um importante passo e as medidas, se devidamente implementadas, com certeza vão inibir a ação dos bandidos. Mas isso não é tudo. É preciso haver mudanças individuais. Há alguns dias, o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, contou uma ilustração interessante numa de suas entrevistas. Um pai estava trabalhando em casa. O filho, pequenino, a todo momento o interrompia. Pensando em ocupar o tempo do filho, o pai pegou um mapa-múndi, recortou-o, separando os continentes, os mares, etc. Depois, entregou ao filho os pedaços de papel e disse-lhe que só voltasse quando houvesse juntado as partes corretamente.

Não demorou quase nada e lá estava o menino de volta, com a tarefa realizada. O pai ficou admirado e perguntou: “como você conseguiu fazer isso tão depressa?” O filho respondeu: “Eu olhei na parte detrás do mapa e havia figuras de diversas partes do corpo humano. Fui juntando tudo: cabeça, pescoço, braços, mãos, tronco, pernas, pés. Quando acabei, olhei do outro lado e o mundo também estava certinho!”

A lição é clara demais: o caminho para consertar o mundo é consertar, primeiro, o homem individualmente. E isso, só o Evangelho pode fazer: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”, 2Coríntios 5:17.

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Fonte: Jornal Aleluia de julho de 2000

O poder destrutivo da intolerância – Junho/2005

Uma reflexão sobre Lucas 9: 46-56.

“As leis, por si mesmas, não conseguem
assegurar liberdade de expressão; para que
cada homem exponha seus pontos de vista
sem sofrer penalidade deve haver espírito
de tolerância em toda a população”
                                       
Albert Einstein (1879 – 1955)

Desde o seunascedouro e durantetoda a história da Igreja, o Cristianismo sofre constantementedoistipos de ataques: os externos, promovidos porforças não-cristãs que querem barrar a expansão da fé, e os internos, que nascem dentro das próprias comunidades eclesiásticas.

Exemplo de investidas externas à Igreja são as perseguições movidas pelos oponentes do Cristianismo, que fizeram milhares de mártires.

Mas há também o que se poderia chamar de autofagia no Corpo de Cristo. Muitos conflitos nascem dentro da própria comunidade cristã. Surgem verdadeiros duelos onde cada uma das partes quer fazer prevalecer seus pontos de vista, sem importar-se com os danos que isso possa trazer.

Um retrato dessa autodestruição pode ser visto nos problemas vivenciados pela igreja de Corinto, que estava completamente dividida. A dificuldade foi tratada por Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. O apóstolo repreendeu com severidade aqueles que promoviam divisões.

Os cismas na Igreja geralmente ocorrem porque há uma luta por poder. Procura-se normalmente justificar as divisões por questões doutrinárias. Mas o cerne de toda problemática geralmente tem a ver com alguma disputa por autoridade e prevalência de idéias. O orgulho leva à disputa por poder. No texto que nos serve de base para esta reflexão, os discípulos discutiram sobre qual deles era o maior, vv. 46-48. Como conseqüência, vieram as atitudes intolerantes.

Sejam de origem externa ou interna, os ataques contra o Corpo de Cristo têm sempre a intolerância como ponto de apoio. O intolerante não sabe ouvir opiniões contrárias às suas, não respeita limites, é perseguidor.

Em Lucas 9: 46 a 56, há dois interessantes episódios envolvendo Jesus e os discípulos. Nos dois casos, o tema da intolerância está presente. Na primeira narrativa, vv. 49-50, o apóstolo João conta ao Senhor que havia visto um homem que expulsava demônios em nome de Jesus, porém lho proibira: “Nós lho proibimos, por que não segue conosco.” Se aquele homem pertencia a um outro círculo de convivência, raciocina João, como poderia, então, ex-pulsar demônios em nome de Jesus?

O Senhor, tratando do assunto com extrema sabedoria, disse não à intolerância. João e os demais apóstolos foram repreendidos pelo Senhor, que disse: “Não proibais; pois quem não é contra vós outros é por vós”.

Jesus, assim, condenou a visão míope, unilateral, autofágica e auto-mutiladora. Aquela atitude de João feria não apenas o homem que fora repreendido, mas o Reino de Deus. Ao invés de agregar forças, os discípulos estavam desprezando alguém que poderia fazer um importante trabalho pelo Reino de Deus.

Assim é que, muitas vezes, continuamos agindo até hoje. Basta um ponto de divergência para que a intolerância se manifeste. E o resultado todos conhecemos!

Na seqüência da narrativa bíblica (vv. 51-56), há outro episódio curioso. Novamente, João é um dos que lideram o movimento. Jesus não fora recebido numa aldeia de samaritanos. Tiago e João, cheios de ira, perguntaram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?” E, de novo, Jesus repreendeu os discípulos. Não havia necessidade de fogo do céu. Estavam ali almas preciosas que seriam alcançadas pela graça de Deus. Jesus sabia que, mais tarde, o movimento missionário chegaria aos samaritanos. E, de fato, após um tempo Filipe pregou o Evangelho àquelas pessoas, At 8: 4-8.

Se desejamos ver igrejas fortes, saudáveis, temos de aprender a ser mais tolerantes, não-exclusivistas. O modelo ensinado por Jesus é de um coração fraterno e compreensivo. Atitudes permeadas pelo amor, fruto do Espírito, trarão mais paz em nossos relacionamentos.

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Fonte: Jornal Aleluia de junho de 2005

O pastor modelo – Junho/2002

O trabalho de alguns pastores tem sido alvo
de ferozes críticas na mídia. Os jornais e a TV
não perdoam deslizes e se incumbem de levar
os escândalos aos ouvidos de toda a nação.
Como evangélicos, não gostamos de ver o bom
nome do Evangelho maculado
pelo testemunho inadequado
de homens que deveriam
ser exemplos de vida

Já ao tempo do Novo Testamento, a Igreja sofria certas ameaças. Lobos que se vestiam de ovelhas rodeavam o rebanho de Jesus. Seus interesses eram egoístas; seus métodos, espúrios; seu vocabulário, enganador.

O texto de 1Pedro 5: 1-4 é um verdadeiro crivo para separar o bom do mau pastor. Em dias de mercantilismo da religião, em que pessoas com caráter doentio promovem escândalos, é necessário que aprendamos com o apóstolo as atitudes fundamentais de quem deseja pastorear o rebanho de Deus. Ele mostra três grandes provas a que todo aquele que almeja o pastorado deve se submeter e ser aprovado.

A prova das motivações

Quais os interesses que levam alguém a optar pelo sagrado ministério? Não pode ser outro, mas sim a vocação divina. Pedro disse que ninguém pode ir para o ministério pastoral movido por qualquer tipo de constrangimento. À vocação divina se atende com espontaneidade, como fizeram os discípulos que, deixando seus trabalhos e familiares, responderam ao chamado de Jesus, Mt 4: 18-22.

Professores de seminários e de instituições teológicas costumam dizer, nos primeiros dias de aula, aos alunos: “Se você veio estudar no seminário porque não conseguiu passar no vestibular, está no caminho errado”. Ministério pastoral não é segunda opção, não é decisão forçada por circunstâncias humanas.

Ainda quanto às motivações, Pedro cita a “sórdida ganância”. Essa expressão refere-se a interesses financeiros. Desde o primeiro século, certas pessoas pensavam no ministério como fonte de ganhos financeiros.

O mercantilismo da fé tornou-se um grande negócio. Há pregadores que usam o Evangelho como instrumento para enganar o povo em sua simplicidade e arrebanhar os incautos. Não pensam nas almas perdidas, mas no dinheiro que podem vir a obter através de contribuições.

A prova do temperamento

Será que para alguém ser pastor é necessário que tenha um determinado temperamento? É evidente que não. Mas é preciso, sim, que tenha controle de seu temperamento.

O apóstolo Pedro havia sido um homem impulsivo e volúvel. Num momento confessara a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16: 16); logo depois, ouviu a repreensão: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16: 23); numa circunstância afirmou: “Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte…” (Lc 22: 23); depois disse: “Não conheço tal homem” (Mt 26: 72), negando a Jesus.

O Espírito, contudo, moldou o apóstolo Pedro. Do alto de sua experiência pastoral, afirmou que todo aquele que pastoreia o rebanho de Deus não pode agir como “dominador”. Ora, que é isso senão uma afirmação de que o temperamento de quem exerce o pastorado deve ser completamente submetido ao controle do Espírito de Deus?

O pastor dominador não é temperante, modesto ou cordato, comportamentos essenciais mencionados por Paulo em 1Tm 3: 3. O dominador não ouve os liderados, é autocrático, não permite aos outros fazer escolhas, sente-se dono do rebanho e faz prevalecer sempre sua vontade. Tal pessoa não serve para o pastorado, de acordo com o apóstolo Pedro.

A prova do caráter

Finalmente, o apóstolo manda que os pastores sejam modelo para o rebanho. Essa foi a mesma preocupação que Paulo expressou para com Timóteo: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.” (1Tm 4: 12).

A palavra grega traduzida por “padrão” nesse versículo é “typos”. Esse termo (tipo) está relacionado às artes gráficas. O tipo gráfico é um bloco de metal fundido ou de madeira que tem em uma de suas faces uma determinada gravação em relevo. Através da impressão são feitas tantas cópias quantas necessárias. Assim deve ser o pastor: um tipo. Seu caráter deve ser reproduzido no rebanho.

A dura verdade é que há uma crise de comportamento no mundo atual. Essa crise tem sérios reflexos na igreja. Mas quem não tem condições de ser modelo, padrão para o rebanho, também não deve exercer o pastorado.

O caráter íntegro e o amor incondicional ao Senhor são marcas daquele que atendeu à vocação divina. Paulo, em 1Tm 3: 1- 7, enumera as qualificações necessárias para quem aspira ao ministério.

É impossível ser pastor sem o fruto do Espírito na vida, Gl 5: 22-23. São essas qualidades que dão condições ao homem de Deus de desenvolver um pastorado eficaz, produtivo e abençoado.

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Fonte: Jornal Aleluia de junho de 2002

O ministério modelo – Da obra ‘Ministério Excelente’, 2004

Os quatro evangelhos são a grande fonte
de que dispomos para analisar
o ministério de Jesus.
Basta uma leitura rápida desses textos
para nos encantarmos com a beleza
das narrativas e a riqueza de detalhes
e ênfases quando os autores
descrevem a vida do Senhor.

Neste capítulo, (*) nossa atenção se volta para duas passagens dos evangelhos que resumem os objetivos e as estratégias utilizadas por Jesus: Lucas 4: 18-19 e Mateus 9: 35-39. São textos curtos, mas permitem ampla reflexão sobre o trabalho realizado por Jesus como modelo para a ação pastoral hoje.

Lucas 4: 18-19

Em Lucas 4: 18-19, o leitor do Evangelho encontra uma síntese perfeita do ministério de Jesus. O Senhor havia acabado de passar por um longo período de jejum e tentação, ao final do qual saíra vitorioso. Estava iniciando seu ministério. Jesus foi à Galiléia e sua fama já estava se espalhando. Ia às sinagogas, ensinava e as pessoas ficavam impressionadas não só com o conteúdo de seu ensino, mas também com a forma como ele expunha as Escrituras. Sua palavra tinha autoridade (Mc 1: 22).

Chegando a Nazaré, onde fora criado, Jesus dirigiu-se à sinagoga, leu o texto de Isaías 61: 1-2 e disse que naquele dia aquela palavra profética estava se cumprindo. A leitura que Jesus fez na sinagoga foi a seguinte:

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. (Lc 4: 18-19)

O Espírito do Senhor
está sobre mim, pelo que me ungiu…

Ao dizer que o Espírito do Senhor estava sobre ele, Jesus faz uma grande distinção entre a ação do Espírito na vida dos servos de Deus do Antigo Testamento e em sua própria vida. No AT, o Espírito vinha sobre determinadas pessoas em ocasiões específicas. Dava instruções quanto ao quê deveriam dizer e as impulsionava a ação. Com Jesus era diferente. O Espírito do Senhor estava sobre ele não de forma temporária, mas permanente e representava a plenitude dos dons e da graça divina sobre o Messias:

Repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. (Isaías 11: 2)

O Pai não só entregou um ministério nas mãos de Jesus, mas capacitou-o para a tarefa. O apóstolo Pedro reconheceu o valor dessa unção especial do Espírito sobre Jesus para o desempenho de seu ministério messiânico (At 10: 38).

Com Jesus, inaugurou-se um novo tempo nas relações entre o Espírito e o salvo. Num de seus diálogos com os discípulos, o Senhor disse: R20;E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convoscoR21; (João 14:16). E após sua ressurreição, R20;soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.R21; (Jo 20: 22)

Sem unção do Espírito não há ministério eficiente, há mero profissionalismo; não há sermões, há discursos; não há formação de caráter dos ouvintes, mas informação que serve apenas para o intelecto. Sem unção do Espírito o pregador não tem alimento para dar às almas famintas.

A unção do Espírito traz visão ao ministério pastoral. O espírito abre os olhos do pastor para que ele consiga enxergar as reais necessidades que estão ao seu derredor. No ministério de Jesus, o Espírito o ungiu para diferentes tarefas, como é possível ver nas afirmativas do texto.

… me ungiu para evangelizar os pobres

Quem eram os pobres, aos quais Jesus se referia? Eram aquelas pessoas sem recursos financeiros, desprezadas pelos doutores judeus. Estes as julgavam incapazes de compreender a lei e os ensinos que eles ministravam. Os pobres eram, também, aqueles que tinham consciência de sua fragilidade espiritual e que sabiam que sua justiça própria não os levaria a lugar algum. Por isso, buscavam a graça redentora oferecida pelo Messias.

Os fariseus referiam-se ao povo como se fosse escória: R20;Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita.R21; (Jo 7: 49). Jesus, no entanto, disse que os pobres de espírito são bem-aventurados, porque deles é o reino dos céus (Mt 5: 3). Em muitas situações, os pobres serviram de exemplo em seus ensinos (Mc 12: 42-43; Lc 16: 19-31)

Jesus foi ungido para evangelizar tais pobres. O verbo evangelizar (gr. euaggelizw) significa levar boas notícias, anunciar boas novas. Nas traduções gregas do Antigo Testamento, a palavra era usada para referir-se a qualquer tipo de boa notícia, particularmente aquelas relacionadas à bondade de Deus e às bênçãos trazidas pelo Messias. No NT, o termo é empregado para falar das boas-novas a respeito da vinda do reino de Deus, e da salvação que pode ser obtida através de Cristo.

Evangelizar, no NT, não é apenas fazer o mero anúncio de uma verdade, mas refere-se também a instruir as pessoas a respeito das verdades que pertencem à salvação que há em Cristo. A evangelização praticada por Jesus não era uma proclamação vazia. Exigia mudança de caráter e de comportamento, como aconteceu com a mulher samaritana (Jo 4) ou com Zaqueu (Lc 19).

Jesus tinha visão de ministério. Fora ungido para levar boas notícias aos excluídos. Talvez muitos pastores se vejam limitados no trabalho pastoral porque esteja faltando visão de trabalho. Você foi ungido para quê? Para que tipo de trabalho Deus o chamou e o capacitou? Os ministérios são diversos e as capacitações também.

enviou-me para proclamar
libertação aos cativos

Os grandes opressores da alma do povo eram a lei, o pecado, o poder político romano e, sobretudo, Satanás. Os ouvintes de Jesus eram totalmente escravizados, embora não o admitissem: R20;Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?R21; (Jo 8: 33).

A unção de Jesus era, também, para proclamação de R20;liberdade aos cativosR21;. O verbo R20;proclamarR21; era usado para designar a atividade de um arauto. Sugere formalismo, gravidade e autoridade que deveria ser escutada e obedecida. No Novo Testamento, esse verbo era usado para referir-se à proclamação pública do evangelho e aos assuntos a ele atinentes.

A libertação dos cativos é um tema profundamente enraizado nas Escrituras, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento: Sl 102: 20; 107: 10-16; 146: 7; Is 42: 7; 45: 13; 49: 9, 24, 25; 52R21;2,3; Zc 9: 11, 12; Cl 1: 13. O Senhor é um Deus de liberdade.

Jesus não anunciou libertação política. Após sua ressurreição, quando os discípulos pareciam ainda estar encantados com a idéia de um Messias político, perguntaram-lhe: R20;Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridadeR21; (At 1: 6-7).

Os judeus sofriam a opressão política exercida pelo Império Romano. Jesus sabia que o povo esperava um Messias que trouxesse libertação política. No entanto, ele não se deixou desviar do grande alvo de seu ministério: alcançar os que estavam espiritualmente cativos. A pior escravidão que existe é a do espírito. Quem tem o espírito sob algemas não exerce sua vontade, não pensa, não toma decisões. A liberdade do espírito é a maior que existe. A partir dela, é possível desfrutar de outras liberdades.

O pastor precisa saber para que foi chamado e como vai cumprir a vontade de Deus para sua vida. Muitas vezes, durante o exercício do ministério surgem belas propostas que tentam afastar o vocacionado do seu chamado. Jesus poderia até encantar-se com o sonho de liberdade política de seu povo. Mas, os cativos que ele precisava libertar eram outros.

…restauração da vista aos cegos

A referência aqui é aos que estão mortos em seus delitos. Tais pessoas foram imobilizadas pelo pecado e tornaram-se insensíveis. Não conseguem enxergar o avançado estado de decomposição espiritual em que se encontram até que Cristo abra as portas da prisão e faça com que seus olhos vejam a luz (Is 49: 9).

para pôr em liberdade os oprimidos

É preciso notar a distinção entre as expressões R20;proclamar libertação aos cativosR21; e R20;pôr em liberdade os oprimidosR21;. A primeira fala de anunciação de uma verdade, a segunda fala de ação. Jesus não apenas anunciou que era a liberdade era viável, e não uma utopia, mas ele foi ungido pelo Espírito para, definitivamente, libertar os oprimidos.

e apregoar o ano aceitável do Senhor

O ano aceitável do Senhor; é uma alusão ao ano do jubileu, em que os escravos eram libertos, as dívidas perdoadas, as terras devolvidas aos antigos proprietários, etc. (Lv 25: 8-54). Era um ano de restauração. Na mensagem de Jesus, o R20;ano aceitávelR21; é o momento que Deus escolheu para revelar seu Filho ao mundo. É o tempo em que Ele mostra sua boa vontade aos homens, disposto a celebrar uma nova aliança.

Mateus 9: 35-36

E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades. Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.

Esse texto também ajuda a entender o ministério de Jesus como modelo para o pastorado. A passagem revela diferentes dimensões da atividade de Jesus como pastor de almas.

Jesus, pastor das cidades e dos povoados

Muitos pastores cobiçam pastorear grandes igrejas em movimentados centros urbanos. Sentem arrepios só em pensar na hipótese de trabalhar com comunidades pequenas, interioranas. Nesses casos, o foco desses pastores não são as almas, mas o status que o ministério lhes proporcionará.

Jesus não desprezava as pequenas vilas, onde habitavam pessoas simples e pobres. Tampouco deixava de visitar as grandes cidades de seu tempo. Seu ministério tinha como foco o indivíduo. Por isso, ele ia onde estivesse o homem.

Jesus, mestre

Uma das dimensões do ministério de Jesus era o ensino. Os evangelhos são riquíssimos nas narrativas em que os discípulos sentam-se aos pés de Jesus para ouvir suas lições. Jesus ensinou sobre o reino de Deus, sobre o pecado, sobre o homem, etc. Sua linguagem era direta, clara, objetiva. Usou parábolas para ensinar. Através de fatos conhecidos de seus ouvintes ensinava verdades espirituais profundas (Mt 13, 18, 20, etc.). Jesus permitia que os discípulos fizessem perguntas, tirassem dúvidas (Lc 8: 9). Usou o método de perguntas e respostas (Mc 8: 27). Uma das mais ricas narrativas do Evangelho em que Jesus ensina seus discípulos está em Mt 5 a 7.

O pastor precisa saber ensinar. Precisa ser mestre (Ef 4: 11). Em 1Tim 3: 2, falando acerca dos bispos, o apóstolo Paulo exige que os que aspiram o episcopado sejam aptos para ensinar. Se o pastor não ensina, o rebanho fica desnutrido. Não há igreja que sobreviva sem alimento sólido. É o ensino que coloca a Palavra na mente e no coração do povo.

Jesus, o arauto das boas-novas

Em Mateus 9: 35, o verbo traduzido por R20;pregavaR21; também poderia ser traduzido por R20;proclamavaR21;. O conteúdo da pregação de Jesus era o Evangelho do Reino e o coração de seu ensino está no Sermão do Monte (Mat. 5-7).

Os pregadores contemporâneos estão afastando-se da simplicidade do ensino de Jesus. Estão deturpando a essência do Evangelho. Muitos pregam que a decisão por Cristo trará prosperidade financeira, aumento de bens, muitas riquezas. Fazem promessas de que a aceitação do Evangelho vai resultar numa rechonchuda conta bancária. Que diria Jesus se estivesse sentado num banco de igreja, ouvindo um desses sermões em que os pregadores dão a idéia de que o Evangelho é um negócio que se faz com Deus? Essa é a graça barata criticada pelo teólogo Dietrich Bonhoeffer. É a graça sem compromisso, que Jesus desconheceu.

Jesus e a cura das enfermidades

O ministério não é feito só com palavras. A eloqüência do pregador não garante a satisfação do povo. O ministério se faz com o poder que vem do Espírito de Deus. Jesus era mestre, pregador e também demonstrava que a unção do Senhor estava sobre ele ao curar as enfermidades. O apóstolo Pedro reconheceu isso em At 10: 38.

O ministério pastoral tem de ser holístico, integral, abrangente, como o de Jesus. Ele ensinava, pregava e curava. Fazia tudo movido por compaixão (Mt 9: 36). Muitos são os pastores que fundam igrejas pensando nas vantagens financeiras que poderão obter. São os mercenários condenados por Paulo quando escreveu a Timóteo (1Tim 6:5).

Concluindo

Jesus não se preocupou com o número de seguidores que se agregariam a ele. Quando lhe perguntaram: R20;Senhor, são poucos os que são salvos?R21; ele respondeu: R20;Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão.R21; (Lc 13: 23-24). E, certa vez, ao pregar um duro sermão, quando todos se retiraram, ele perguntou aos discípulos: R20;quereis também vós outros retirar-vos?R21; (Jo 6: 67).

Jesus enfatizou o compromisso e a mudança de vida. Não há lugar para vida cristã descompromissada nos relatos do Novo Testamento: R20;Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.R21; (Lucas 9: 23).

As pessoas deixavam Jesus fascinado. Não as altivas, poderosas, cheias de si. Essas foram duramente criticadas por Jesus. Mas Jesus sentiu compaixão dos que estavam debilitados, dos oprimidos, dos pobres, dos rejeitados, dos considerados pecadores. A esses Jesus dedicou sua vida a fim de restaurá-los e de dar-lhes uma esperança renovada. Esse é o trabalho do pastor.

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Fonte: capítulo do livro “Ministério Excelente” Editora Aleluia, 2004

Em quem confiar nas horas de crise?

“Entre os ídolos inúteis das nações existe algum
que possa trazer chuva?
Podem os céus, por si mesmos, produzir chuvas copiosas?
Somente tu o podes, Senhor, nosso Deus!
Portanto, a nossa esperança está em ti, pois tu fazes
todas essas coisas.”

Jeremias 14: 22

A crise hídrica em algumas regiões de nosso país é notícia constante nos meios de comunicação. Todos os dias, fala-se sobre a falta d’água em São Paulo e em outras regiões do Sudeste brasileiro. Os reservatórios que abastecem toda a região metropolitana da capital paulista estão com pouquíssima água. Crescem, por isso, as campanhas para uso consciente da água.

O que é problema gravíssimo para o Sudeste virou até piada em outras regiões do país. Recentemente, um garoto do Acre postou um vídeo que, até 15 de fevereiro, havia tido mais de 500 mil visualizações só no Facebook. O menino abre uma torneira, entra embaixo de muita água e zomba dos paulistanos.

O Brasil é rico em recursos hídricos. Nosso país tem de 12 a 16% da água doce disponível no planeta. Mas a concentração desse precioso líquido está nas regiões onde as florestas são mais preservadas e a população é menor. Por isso, no litoral brasileiro e nas regiões Sudeste e Nordeste, onde estão 70% da população, os centros urbanos sofrem por falta d’água.

As perspectivas, infelizmente, não são boas. Os estudiosos do clima preveem para os próximos anos aumento de temperatura e redução significativa das chuvas.

Quanto desperdício de água se vê na lavagem de carros e de calçadas. Quanta água desperdiçada nos longos banhos. Tudo isso colabora para a escassez que agora vivenciamos. E há, também, a culpa dos governantes, que não tomaram medidas antecipadamente para evitar a crise.

O profeta Jeremias e a seca

Uma forte crise hídrica também foi o tema abordado em Jeremias 14. A seca trazia prejuízos incalculáveis para o povo. O profeta menciona as dificuldades vividas nas cidades pela falta de chuvas (vv. 2-3); fala sobre a seca nos campos (v. 4) e o sofrimento dos animais pela falta de comida (vv. 5-6). As cidades definhavam, as cisternas estavam vazias, os agricultores nada colhiam, os animais pereciam. O povo estava desesperado.

Jeremias associa a seca que seu país vivia ao juízo divino. Havia pecado, afastamento de Deus, esquecimento da lei, prostituição religiosa. Jeremias, então, afirma: “Embora os nossos pecados nos acusem, age por amor do teu nome, ó Senhor! Nossas infidelidades são muitas; temos pecado contra ti. Ó Esperança de Israel, tu que o salvas na hora da adversidade… não nos abandones”.

Não podemos dizer que o Brasil vive seus melhores dias. Hoje, 23 de fevereiro de 2015, há manifestações de caminhoneiros em sete estados brasileiros, parando rodovias, pedindo preços mais baixos de combustíveis, pedágios mais baratos, fretes mais compensadores. No Paraná, professores estão em greve com várias reivindicações ao governo. Sinais de corrupção há por todo lado, em todos os poderes. Fala-se em recessão econômica em 2015. Que fazer em situações assim?

Na hora da crise, o profeta Jeremias vê uma só saída: clamar pela intervenção de Deus. Ele afirma que os ídolos pagãos não poderiam faziam chover. Nem a natureza, por si, segundo o profeta, tinha o poder de derramar copiosas chuvas.

A fé que Jeremias nutria em seu coração apontava para o Senhor como sendo aquele que tem tudo sob o seu domínio, inclusive a natureza. Por isso, diz o profeta: “Nossa esperança está em ti.”

O profeta nos ensina que, em todos os momentos, precisamos compreender que o Senhor tem o controle de tudo. Ele é soberano. Ele faz chover. Exemplo disso foi a experiência do profeta Elias, que orou e por três anos e seis meses não choveu; depois, orou de novo, e choveu abundantemente (1Rs 17, 18; Tg 5:17-18).

Embora haja razões científicas para explicar a falta de chuvas, as Escrituras nos fazem ver a questão sob outra perspectiva, com olhos de quem conhece o sobrenatural poder de quem criou todas as coisas e que rege o universo segundo seu querer.

Lembro-me de um professor de Teologia, vindo da América do Norte, que fora missionário no interior do Piauí por alguns anos. Ele contava a história de um missionário, também no Piauí, que enfrentara forte resistência ao pregar o Evangelho.

Num período de intensa seca, certa vez aquele missionário orou, pedindo chuva. Ninguém acreditava que, em terra tão árida, com um período tão prolongado de estiagem, uma simples oração pudesse fazer chover. Para surpresa de todos, choveu logo após a oração. A resposta àquela súplica do missionário fez o povo ver que há um Deus soberano, que controla a natureza. Lembro-me, também, de um edificante testemunho de um produtor agrícola, temente a Deus, que em período de seca, orou e viu chover sobre suas terras.

Experiências assim fortalecem nossa fé. Em pleno século XXI, do império da ciência e da tecnologia, do esfacelamento das verdades absolutas, em que reina uma fé que se apega ao que pode ser visto, tocado e sentido, devemos voltar os olhos e o coração às verdades eternas das Escrituras, que nos revelam um Deus que tudo criou e que jamais perdeu o controle sobre sua criação. “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.” (Sl 19: 1)

O Senhor a quem servimos é soberano e controla a natureza. Diante desse Deus nos curvamos. Nele está a nossa esperança porque ele faz até os céus produzirem copiosas chuvas.

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Fonte: Jornal Aleluia de março de 2015
Disponível em Issuu

A questão teológica da singularidade de Cristo – Jornal Aleluia 232

Aqueles que nunca ouviram
o evangelho serão salvos?

Quem nunca fez uma destas perguntas: “os que jamais ouviram o Evangelho estão perdidos?”; ou então “os índios vão ser salvos?”.

Em nossas escolas bíblicas dominicais, ou nas conversas sobre evangelismo e missões, sempre surgem dúvidas como essas.

Normalmente nossas respostas são muito evasivas, se é que temos alguma. Não refletimos sequer nas implicações que elas possam vir a ter.

Teólogos, pastores e seminaristas fazem a mesma indagação e procuram investigar o assunto sob uma perspectiva bíblica, teológica e filosófica.

A globalização, o pluralismo religioso, a extrema valorização da religiosidade de cada povo como fenômeno cultural, o crescente contato entre os povos e o intercâmbio entre pessoas de diversas culturas vêm fazendo surgir diferentes respostas quanto à salvação dos que nunca ouviram a pregação do Evangelho. Na prática, parece que a mentalidade moderna não admite mais a concepção de que só o Cristianismo têm a resposta única para a salvação humana. Nosso sentimentalismo e todas as influências da globalização nos impedem que afirmemos que os budistas, os muçulmanos, ou os índios, para citar alguns exemplos, que nunca ouviram sobre Jesus, e, portanto, não crêem n’Ele, estão indo para o inferno. Preferimos ignorar o assunto, ou então, bem lá dentro de nós, cremos que, no final, Deus vai dar um “jeitinho”.

A afirmação da singularidade de Cristo como Salvador do mundo, ou seja, dizer que só Jesus salva, é um tema que vem sendo largamente discutido nos Estados Unidos. Diferentes livros sobre o assunto estão sendo publicados. No Brasil, ainda não temos discutido amplamente essa temática, mas mesmo inconscientemente, e sem o necessário debate, possuímos nossas idéias e respostas. Alguns pastores que andaram pesquisando o pensamento de membros de suas igrejas sobre isso se assustaram ao perceber que a maioria dos crentes não achava que a pregação do Evangelho aos povos não-alcançados fosse essencial porque, de alguma forma, Deus iria salvá-los, mesmo sem a ajuda de missionários humanos. Já pensou nas implicações disso para missões?

O tema está sendo discutido no Brasil nos meios teológicos por causa de sua grande relevância. Afirmar, ou então negar, a singularidade de Cristo como Salvador, têm implicações para diversos aspectos da fé cristã, indo a soteriologia (doutrina da salvação) à missiologia (estudo de missões). Como subsídio para a discussão do assunto, a Editora Aleluia lançou um livro sobre o tema. Chama-se E Aqueles que Nunca Ouviram? Três pontos de vista sobre o destino dos não-evangelizados.

As respostas

Alguns teólogos acreditam que mesmo aquelas pessoas que nunca ouviram o evangelho podem ser salvas. Se, através da criação – revelação geral – vierem a crer em Deus, ainda que não conheçam a Jesus, serão redimidas de seus pecados. Dizem que qualquer religião pode ser um instrumento útil para aproximar a pessoa de Deus. Isso é chamado de “inclusivismo”, porque Deus inclui todos em sua graça, antes de excluí-las no julgamento. Mas a fundamentação bíblica desse ponto de vista é muito questionável.

Outros dizem que ninguém será salvo com base no conhecimento que possam ter de Deus através da natureza. No entanto, chegam ao absurdo de afirmar que, logo após a morte, aqueles que nunca ouviram o Evangelho terão uma oportunidade de dizer “sim” ou “não” a Jesus. Deus concederá a todos os homens a chance de ouvir o evangelho e optar, ou não, pela redenção trazida por Jesus. Tomam por base alguns textos difíceis de 1 Pedro (como o cap. 3: 18ss). Dão ao seu ponto de vista o nome de “perseverança divina” ou “evangelismo post-mortem”

Há também os teólogos que ensinam não haver qualquer oportunidade de salvação para o homem, se não existir conhecimento de Cristo e uma resposta pessoal e consciente ao seu chamado. Essa posição é conhecida como “exclusivismo”; às vezes também “restritivismo”. Para que alguém seja salvo, é fundamental ouvir o Evangelho nesta vida e fazer uma decisão por Jesus. Essa é a interpretação que mais parece se afinar ao ensino geral das Escrituras Sagradas.

Os três pontos de vista mencionados aqui – inclusivismo, perseverança divina e restritivismo – são amplamente discutidos na obra E aqueles que nunca ouviram? Três pontos de vista sobre o destino dos não-evangelizados, que a Editora Aleluia publicou. O livro foi escrito por três professores de teologia norte-americanos. É em forma de debate. Cada autor expõe seu ponto de vista e, depois, seu pensamento é avaliado e criticado em duas réplicas escritas pelos co-autores.

A linguagem do livro é clara, com excelente fundamentação. Originalmente foi publicado em inglês pela Inter Varsity Press. A leitura dessa obra irá ajudar todos os que sempre buscaram resposta para a pergunta: “o que vai acontecer aos que jamais ouviram a pregação do Evangelho?”.

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Fonte: Jornal Aleluia 232

Pr. Jonathan Ferreira dos Santos – Outubro/2002

Um dos líderes do movimento de renovação
instaurado na década de 60, do século XX
Um dos fundadores da Igreja Cristã Presbiteriana
Fundador e diretor do Instituto Bíblico de Cianorte, atualmente Seminário Presbiteriano Renovado
Fundador e Diretor da Missão Antioquia

Pr. Rubens Paes e Pr. Francisco Barretos

Origem e preparo teológico

A origem do pastor Jonathan é muito humilde. Tendo nascido em uma família pobre, começou a trabalhar cedo. Ainda criança, vendia frutas para ajudar no orçamento da família. Só aos sete anos de idade é que ganhou seu primeiro par de sapatos.

Contudo, as dificuldades financeiras não foram empecilho à vocação divina. Jonathan Ferreira dos Santos formou-se no Seminário Presbiteriano de Campinas, instituição de renome no meio evangélico brasileiro. Após sua graduação, a Junta de Missões Nacionais da Igreja Presbiteriana do Brasil colocou diante dele três opções: Porto Alegre, RS; Dracena, SP, e Cianorte, PR. Após orar, deixou a decisão para a própria Junta. Como não havia ninguém disposto a ir para Cianorte, esse foi o campo que lhe designaram.

Em janeiro de 1962, o Pr. Jonathan e D. Euza dirigiram-se a Cianorte. As estradas eram ruins, não havia asfalto, as travessias dos rios eram feitas em balsas. Sua esposa deixara um excelente emprego. D. Euza, pessoa fina e requintada, sofreu com as dificuldades que havia na Cianorte dos anos 60. Mas Deus abriu as portas e foi suprindo as necessidades. Poucos meses depois que o casal havia chegado à cidade, D. Euza foi nomeada diretora da única escola que havia em Cianorte.

Devido à sua formação teológica, resistia a princípio as idéias pentecostais. Mas participou de um encontro de avivamento em Belo Horizonte, dirigido pelo pastor Eneias Tognini, e ali foi batizado com o Espírito Santo. Seu ministério tomou uma nova direção.

Fundação do Instituto Bíblico

Em 12 de agosto de 1965, o pastor Jonathan fundou o Instituto Bíblico Presbiteriano de Cianorte. Funcionava inicialmente nas dependências da Igreja Presbiteriana, à rua Porto Seguro. “Era um instituto que não tinha prédio, nem professores, mas tinha alunos”, brinca o pastor Jonathan.

Contudo, aquele projeto estava no coração de Deus. Em janeiro de 1966, o pastor Jonathan recebeu a doação de uma quadra inteira para lá instalar o Instituto Bíblico. Vieram alunos dos estados de Goiás, Rio de Janeiro, Santa Catarina e de muitos outros lugares do Brasil. Os anos de 1966 a 1976 foram marcados pelas mais poderosas manifestações de Deus, relata o Pr. Jonathan.

O Pr. Adolfo Neves foi aluno do Instituto nos anos de 1968 a 1971. Naquela época o número de alunos chegou a 120. Segundo ele, o trabalho do pastor Jonathan foi marcado pela coragem e pela determinação.

Também o pastor Lauro Celso de Souza conheceu o pastor Jonathan na década de 1960. Oraram juntos muitas vezes, fizeram diversas vigílias e viagens. Numa frase de rara inspiração, disse o pastor Lauro: “Tive e tenho o pastor Jonathan como ministro referencial do Evangelho de Jesus Cristo”.

Em 1976, o pastor Jonathan saiu de Cianorte e foi para Londrina. Depois, foi para São Paulo. Há diversos anos, dirige a Missão Antioquia, sediada no Vale da Bênção, em Araçariguama, SP. Lá é feito um trabalho assistencial em que se cuida de 400 crianças. A Missão Antioquia tem mais de 100 missionários em 20 países. A visão que deu à luz a Missão Antioquia nasceu em reuniões de oração realizadas no Instituto Bíblico de Cianorte.

Diretores do Seminário de Cianorte

Desde o ano 2000, o Seminário de Cianorte está sob a direção do pastor Esdras Mendes Linhares. Foram diretores desta instituição: Jonathan Ferreira dos Santos, Décio de Azevedo, Enoque Pereira Borges, Joel Ribeiro de Camargo, Palmiro Francisco de Andrade, José Sidney Dantas, Altair do Carmo Mateus Nunes e Joel de Campos Perroud.
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Fonte: Jornal Aleluia de outubro de 2002

Complemento
Falece a esposa, dona Eusa

Depois de longos dez anos de luta contra enfermidade pertinaz,
a irmã Eusa, esposa do Pr. Jonathan F. dos Santos,
faleceu, no dia 25/02/2011, aos 77 anos.

A IPRB no contexto religioso brasileiro – Julho/2003

A Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil
está vivendo uma nova onda
de despertamento. Igrejas locais estão crescendo,
novos presbitérios estão sendo fundados
e tanto a liderança como a membresia
estão conscientes de sua responsabilidade
neste mundo decadente. A denominação
está trabalhando em diferentes áreas,
a fim de oferecer maior contribuição à sociedade

Áreas que a IPRB está priorizando:

Ajudando espiritualmente as pessoas
através das igrejas locais

As igrejas locais têm tido o mais importante papel na denominação. Nelas os crentes são alimentados com a Palavra e treinados para fazer evangelismo pessoal. Algumas estão implantando o sistema de células ou trabalhando com pequenos grupos. Além das atividades normais de evangelismo, muitas igrejas locais têm programas específicos para alcançar famílias carentes, presidiários, dependentes químicos e outras pessoas necessitadas, exercendo a ação social.

Apoiando aos campos missionários

A MISPA é o braço missionário da denominação. Seu início foi modesto. Hoje a missão tem seus escritórios em Assis, SP, e vários pastores se dedicam à administração da missão com tempo integral. Seu sustento vem das contribuições das igrejas locais e de ofertas voluntárias doadas por aqueles que têm o coração na obra missionária.

A MISPA desenvolve projetos especiais no sertão pernambucano e no Norte do Brasil. A MISPA, além de sustentar campos missionários em diversos municípios brasileiros, trabalha entre algumas tribos indígenas e dá apoio a campos missionários internacionais em África do Sul, Angola, Bélgica, Bolívia, Argentina, Chile, China, Colômbia, Cabo Verde, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Haiti, Inglaterra, Índia, Itália, Japão, Polônia, Portugal, Rússia, Suíça e Venezuela.

A MISPA mantém cursos de missiologia e oferece vários cursos práticos, nas férias, para treinamento de interessados em auxiliar no evangelismo nas igrejas locais, junto aos seus pastores.

Ensinando e preparando
novos pastores e missionários

A IPRB tem dois seminários para a formação de seus pastores e missionários. Um deles está em Cianorte, região Sul do Brasil, com cerca de 150 alunos, e outro em Anápolis, no Brasil Central, com 70 alunos.
Além de encontros de avivamento, para os pastores já em atividade há dois projetos importantes: o PESC (Planejamento Estratégico de Crescimento Integral Sustentável) e outro destinado ao apoio e treinamento aos novos pastores, que tenham menos de dez anos de ministério. Os dois projetos promovem cursos, fornecem literatura e têm um líder para dinamizá-los. Além disso, por ocasião das Assembleias Gerais, um dia é dedicado ao SAT (Seminário de Atualização Teológica), quando um preletor fala a toda a liderança.

Publicando literatura própria

Para produção de literatura própria a baixo curso, a Igreja possui a Editora Aleluia. Ela nasceu a partir da publicação do Jornal Aleluia, editado inicialmente a cada dois meses. Hoje o Jornal é mensal e já ultrapassou a 420 edições. Para isso possui gráfica própria com cerca de 30 funcionários. A Editora publica livros de autores brasileiros e estrangeiros, hinários, redige e publica revistas de EBD e folhetos para evangelização. Distribui literatura de outros publicadores, além de prestar serviços comerciais a quem solicita seus préstimos. Ainda na área da comunicação, a Editora gerencia o site da denominação e um próprio, como Loja Virtual.

Ênfases e planos

A realidade brasileira exige uma Igreja ativa, dinâmica. As pessoas querem mais que formas litúrgicas e rituais. Nesse contexto, a IPRB tem procurado descobrir meios para fazer um evangelismo mais eficaz. Há, também, uma consciência da importância da comunhão, do discipulado, da Escola Bíblica Dominical e do trabalho social.

As igrejas locais têm sido encorajadas a desenvolver atividades especiais de evangelismo e comunhão através de grupos familiares. Uma forte ênfase vem sendo dada ao treinamento de liderança nas igrejas locais.

Os seminários estão profundamente envolvidos em preparar pessoas para o pastorado e também para o campo missionário. Além de cursos de extensão, há projetos para que se desenvolvam cursos para treinamento teológico em vídeo a serem destinados a líderes leigos que vivem em regiões mais distantes. E entendimentos para instalação de cursos de nível superior aos de graduação.

A IPRB é uma igreja nova. Muitas Igrejas locais, buscando sua estruturação, construíram ou estão construindo seus templos. Outras já estão ampliando. Há ainda muito a ser feito em todas as áreas e necessidades físicas a serem supridas. Uma novidade é a “Igreja da Criança”. Um templo com todas as instalações voltadas para o mundo infantil, separadas dos adultos, objetivando seu crescimento.

Os líderes locais, os pastores e a liderança nacional da IPRB têm planos, projetos e sonhos. Para que os grandes ideais se tornem realidade, requer-se o envolvimento total de cada membro do Corpo de Cristo. O peso do trabalho não pode recair apenas sobre os ombros da liderança ou de alguns. Cada cristão tem de assumir sua responsabilidade como discípulo de Jesus. A Igreja de Jesus só faz progresso quando todos abraçam a obra do Senhor com profundo amor em seus corações.

O Brasil tem uma população de mais de 206 milhões de habitantes. Destes, 125 milhões são católicos romanos. O último Censo mostrou um declínio no quadro da religião majoritária, cerca de 11,9%, e um avanço dos evangélicos, que passaram de 13 para 26 milhões. As igrejas que tiveram crescimento mais expressivo foram as pentecostais e as que estão abertas para a obra de renovação espiritual. A membresia da IPRB quase que dobrou nesse período, mostrando um crescimento de 95,3%. Em 2016 ultrapassou os 150 mil membros adultos.

A Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil é um ramo do presbiterianismo no Brasil com forte ênfase na obra do Espírito Santo. A Denominação prega que tanto o batismo com o Espírito Santo como os dons são bênçãos para os dias atuais. Prega, também, que o poder do Espírito é fundamental para todos os que desejam ter uma vida cristã eficaz e procuram comunicar o Evangelho com poder e autoridade. Adoração, comunhão, santificação, missões e evangelismo são algumas das palavras-chaves para os presbiterianos renovados.

Traços distintivos

Questiona-se, às vezes, o “presbiterianismo” dos presbiterianos renovados. Recente artigo de uma revista teológica fez isso. Não há como deixar de confessar que a IPRB tem suas peculiaridades. Uma delas é a posição teológica de seus pastores. Há defensores da teologia calvinista como também aqueles que abraçam as ênfases arminianas. Isso porque a Igreja aprendeu a não deixar que determinadas questões teológicas sejam entraves à boa convivência e à realização da obra de Deus.

Outra peculiaridade está em sua forma de governo. A IPRB adota o sistema presbiteriano, porém simplificado. Nele não existem os Sínodos, mas em seu lugar há uma diretoria, com poderes administrativos, formada por todos os presidentes de Presbitérios que decidem as principais questões da Igreja. O órgão máximo é a Assembleia Geral que elege a Diretoria Executiva. Essa estrutura lhe confere dinamismo administrativo, sem tirar o sentido participativo necessário diante da realidade social e cultural tão diversa que existe no Brasil.

Há, ainda, outras peculiaridades que dão à IPRB uma compleição bem particular. A liturgia simples e a inserção do trabalho leigo têm um alto valor no crescimento da Denominação.

Afinidade e união
marcam a origem da Igreja

No final dos anos 60, um movimento de renovação espiritual alcançou uma parte do meio presbiteriano no Brasil. Foi marcado por intensa oração, jejum, manifestação do dom de línguas, profecias e de outros dons do Espírito.

Grupos avivados surgiram e foram crescendo internamente até que, em 1968, esses membros da Igreja Presbiteriana do Brasil que foram influenciados pelo movimento de renovação espiritual deixaram a denominação e fundaram a Igreja Cristã Presbiteriana.

Processo semelhante aconteceu na Igreja Presbiteriana Independente. Muitos pastores e membros deixaram a Igreja e, em julho de 1972, fundaram a Igreja Presbiteriana Independente Renovada.

Essas duas denominações caminharam lado a lado mas, percebendo sua grande afinidade, trabalharam pela sua união. Em 8 de janeiro de 1975, dois presbitérios da Igreja Cristã Presbiteriana e seis da Igreja Presbiteriana Independente Renovada uniram-se, após uma série de reuniões de estudos e de entrosamento, e constituíram a Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil.

Participaram da primeira assembléia 58 pastores, 30 evangelistas e 78 igrejas foram representadas. A nova Denominação tinha 8 presbitérios, 8.335 membros e 12.497 alunos na EBD.

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Fonte: Jornal Aleluia de julho de 2002
Dados atualizados em março de 2017

A família e as relações afetivas no mundo pós-moderno – Junho/2003

A expressão “pós-modernismo”
ganhou espaço na Teologia, no Direito,
na Filosofia, nas artes e em outros ramos
do conhecimento humano.
Convencionou-se chamar de pós-moderno
o período que começou em 1945,
após a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto o Modernismo representava
uma ruptura com o passado, o Pós-modernismo
mescla o antigo com o novo; é eclético

Os novos conceitos éticos, a moral e os costumes que vão ganhando forma e conquistando espaço trazem preocupações. Há certas áreas em que o homem parece regredir. A qualidade da vida emocional das pessoas está piorando a cada dia. Nos relacionamentos interpessoais falta carinho e sobra agressividade, falta compromisso e sobeja infidelidade. O caráter das pessoas está enfraquecido.

Os costumes mudaram sensivelmente na segunda metade do século XX. Toda essa mudança influenciou a família. Os lares tornaram-se mais frágeis. A sexualidade foi banalizada. Os filhos passaram a viver de forma mais independente. Os jovens já não são tão entusiastas quando falam em casamento. Homens e mulheres estão fugindo aos compromissos que a união conjugal traz consigo. Dentro e fora das igrejas, muita gente vive verdadeiros pesadelos em seus relacionamentos conjugais. Não é incomum ver homens e mulheres frustrados que, se pudessem, voltariam no tempo e jamais se casariam.

Contudo, esse não foi o plano de Deus ao instituir o casamento. O Senhor viu que a solidão não era boa para o homem. Por isso, criou a mulher. O Criador pensou em companheirismo, em vida sentimental, em carinho, em amor. E o lar é o lugar que Deus planejou para que as pessoas tenham supridas suas carências emocionais.

Que é o casamento

Dizem alguns, em tom de brincadeira, que o casamento é um barco feito para naufragar. Se ele conseguir sustentar-se sobre as águas, será exceção. Que pensamos nós, cristãos, acerca do casamento? Embora vivamos numa sociedade chamada de “pós-moderna”, e estejamos cercados por conceitos morais liberais, nossos princípios devem estar firmados nas Escrituras Sagradas.

a) O casamento é uma instituição divina, Gn 2: 18. Foi Deus quem estabeleceu o matrimônio, com o objetivo de tornar o homem completo e feliz. A união conjugal não é um barco feito para naufragar. Jesus ressaltou a importância do matrimônio e o confirmou como sendo instituição divina, Mc 10: 7-9.

b) O casamento é uma união exclusiva, Gn 2: 24. A idéia original de Deus para o casamento é a monogamia. O Senhor criou uma mulher, Eva, e a entregou a um homem, Adão. Contudo, a cobiça humana e as transformações culturais e sociais se encarregaram de fazer mudanças na estrutura familiar. Por isso a poligamia tornou-se tão comum nos relatos do Antigo Testamento e impregnou muitas culturas.

No Brasil, a bigamia é crime. Quem contrai novo casamento, sendo ainda casado, pode ser condenado de dois a seis anos de reclusão. E o solteiro que contrai núpcias com alguém que é casado, sabendo dessa circunstância, pode ser condenado à prisão pelo período de um a três anos. A lei, no entanto, não tem o poder de fazer com que maridos e esposas sejam fiéis no relacionamento conjugal.

c) O casamento é uma união entre pessoas de sexo diferente. Dirão alguns leitores que é óbvio que o casamento se dá entre pessoas de sexo diferente. Infelizmente, já não é tão óbvio assim. Há legisladores brasileiros lutando pela aprovação de projetos de lei que autorizariam a união civil entre homossexuais.

Em 2002, um projeto de autoria do deputado Ricardo Fiúza propunha a seguinte redação para o artigo 11 do Código Civil: “O direito à vida, à integridade físico-psíquica, à identidade, à honra, à imagem, à liberdade, à privacidade, à opção sexual e outros reconhecidos à pessoa são natos, absolutos, intransmissíveis, indisponíveis, irrenunciáveis, ilimitados, imprescritíveis, impenhoráveis e inexpropriáveis”. (grifo nosso).

O uso da expressão opção sexual na lei teria amplos efeitos e concederia aos homossexuais a total proteção do Direito. No entanto, nossa abordagem aqui não tem como fundamento o Direito, mas as Escrituras Sagradas. Aos olhos divinos, o casamento é uma união entre homem e mulher. As Escrituras sempre abominaram o homossexualismo, 1Co 6: 9-10; 1Tim 1: 10, etc.

d) O casamento é uma união permanente. Deus planejou o casamento para durar a vida toda, Gn 1: 24. Contudo, já ao tempo do Antigo Testamento, os casais enfrentavam tantos problemas que Moisés legislou acerca do divórcio. A mulher ficava completamente desprotegida diante de um marido que não desejava mais permanecer casado.

Mas, quando chegamos ao Novo Testamento, percebemos o quanto Jesus zelou pela saúde da família. Quando lhe perguntaram sobre o divórcio, ele respondeu que Moisés o autorizara por causa da dureza do coração do povo, Mc 10: 9. Jesus protegeu o matrimônio, valorizou a mulher na sociedade judaica e disse que a única hipótese em que o divórcio era admissível seria no caso de infidelidade conjugal, Mt 19: 9.

Para muitos, o vínculo conjugal pode ser desfeito a partir do momento em que ocorrerem os primeiros conflitos ou quando os cônjuges não combinarem mais. Nem todos pensam nos traumas que a separação e o divórcio trazem não só para o casal, mas também para toda a família.

A Bíblia é clara com respeito aos fortes vínculos dessa união, Mt 19: 9; 1Co 7: 10-11. A expressão “unir” (heb. qbd dabaq), em Gênesis 2: 24, originalmente tem o sentido de colar, soldar, pressupondo que qualquer tentativa de rompimento trará efeitos devastadores.

Reafirmando o valor da vida afetiva

Podemos afirmar sem medo de errar que as relações afetivas nos lares não são as melhores. Por isso, talvez este seja o momento ideal para você avaliar, juntamente com seu cônjuge e filhos, qual tem sido o nível do relacionamento afetivo em sua família.

Casais e filhos muito atarefados vão se tornando cada vez mais ausentes da vida familiar. Reveja as prioridades, reorganize seu tempo para que os males e as pressões da chamada “pós-modernidade” não destruam sua família e seus sonhos.

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Fonte: O texto é parte do primeiro capítulo do livro “Curando Lares Feridos”,
de Rubens Paes, publicado pela Editora Aleluia, Arapongas, PR, 2003

O valor das metas no ministério cristão – Abril/2004

Mais do que nunca,
os cristãos estão conscientes
da necessidade de sonhar
e estabelecer metas para criar projetos ousados

Esta é uma mudança importante no comportamento da igreja cristã da atualidade que, em muitos de seus segmentos, vivia uma crise de objetividade e dominada por uma nostalgia infrutífera. No entanto, vemos muita gente sonhando alto e, às vezes, sem ter a mínima noção de como chegar ao sonho proposto no coração. Sonhar é preciso. Sem sonhos começamos a morrer ou vivemos para cumprir os sonhos de outrem.

Deus sonhou em resgatar a humanidade e elaborou um plano para concretizar esse sonho maravilhoso. Com certeza, Deus pensou na maravilhosa bênção de voltar a ter o ser humano restaurado ao seu estado original, uma vez que o pecado tornou o homem um ser maldoso e distante do seu Criador. Mas Deus sabia que isto lhe custaria muito caro e custou nada mais que a vida do seu próprio Filho. Por isso, teve de idealizar uma estratégia para alcançar esse objetivo. A essa estratégia, que é um conjunto de ações e atitudes práticas e sequenciais para alcançar o objetivo, chamamos de metas.

O ponto-chave para a realização de um ministério de sucesso passa necessariamente pela obtenção de uma visão clara e divina daquilo que queremos, pela encarnação dessa visão, tornando-a missão de vida, e pelo estabelecimento de metas para otimizar esta visão para não se perder na caminhada ministerial. Um ministro do Evangelho precisa trabalhar dentro de uma visão clara. Todo líder precisa saber que a visão é o fundamento de toda tarefa em liderança. A visão exige ação e dedicação. Chamamos isso de missão. Contudo, uma missão só pode ser realizada através do estabelecimento de metas. Sua visão de ministério não será realizada a não ser através de um ousado conjunto de metas.

Henry Kaiser disse: “Defina claramente o que você quer mais que qualquer outra coisa na vida; registre os meios pelos quais você pretende consegui-lo e não permita que nada, seja lá o que for, o impeça de alcançar essa meta.”

Exemplos bíblicos

Na Bíblia encontramos exemplos claros de como Deus leva a sério esse assunto. A começar em Gênesis, nos deparamos com o chamado de Deus para Noé livrar a raça humana do extermínio. Nesse episódio Deus revelou a Noé o seu plano de preservá-lo juntamente com sua família e, ao mesmo tempo, destruir a raça humana através do dilúvio. Veja que Deus deu a visão, que se tornou a missão de sua vida, mas a realização desta missão foi levada a cabo através de um plano de metas bem rígido e sequencial, estabelecido pelo próprio Deus, antes de qualquer coisa, Gn 6: 13-22.

Outro texto que me impressiona muito acerca desse assunto é o de 1Sm 15: 1-35. Nessa passagem, vemos Deus ordenando a Saul, rei de Israel, através de Samuel, a destruição dos amalequitas. Veja a ordem: “Vai, pois, pois agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até a mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos até aos jumentos”. Infelizmente Saul, ao invés de cumprir as metas de acordo com a visão que Deus lhe dera, fez do seu próprio jeito.

No primeiro texto vimos que Noé cumpriu as metas estabelecidas por Deus: construiu a arca, colocou os animais dentro dela literalmente como Deus lhe ordenara e teve seu nome eternizado como um líder fiel e vitorioso.

Já no segundo exemplo, Saul não levou muito a sério a realização de sua tarefa ministerial de acordo com um plano de metas baseado na visão que Deus lhe dera, que era a de destruir completamente os amalequitas.

Isso lhe custou o reinado e o seu nome passou para a história como um dos líderes bíblicos derrotados por infidelidade e incapacidade de dar conta da responsabilidade que recebera de Deus. Veja a importância das metas no ministério cristão.

As metas nos desafiam

Ninguém sobrevive sem desafios novos e interessantes. Desde a infância somos movidos por desafios: aprender a falar, andar, escrever, etc… Na vida temos de estabelecer metas para alcançarmos nossos sonhos. Caso contrário, nossos sonhos acabarão se tornando pesadelos, uma vez que os sonhos não se realizam sem trabalho e esforço. Todo esforço e trabalho sem etapas mensuráveis não produzem os efeitos desejáveis. As metas podem produzir uma atmosfera propícia para suportarmos a espera de uma conquista.

Veja que Noé trabalhou mais de cem anos motivado pela salvação de sua vida e de sua família na construção da arca, Hb 11: 7. Jesus viveu como homem, mesmo sendo Deus, por 33 anos e meio, motivado pela salvação da humanidade, Fp 2:6-11. Leia esse texto. Cada ministro tem no reino de Deus uma missão, que é a de fazer outros discípulos, e deve desenvolver o ministério para o qual foi chamado dentro da visão recebida de Deus. Isso certamente nos desafia a estabelecer metas.

Jesus enfrentou a cruz porque essa era uma das metas estabelecidas em seu ministério. Foi um desafio grandioso, mas ele o fez, porque fazia parte de um todo que o levaria ao status de Salvador do mundo de acordo com o plano geral do Pai, que Ele mesmo havia aceitado por amor do seu Santo Nome e também por amor à humanidade.

A realização de metas nos consolida
como líderes (1Sm 15: 22)

Saul não foi consolidado como um rei de sucesso porque vacilou na hora de cumprir as metas estabelecidas por Deus através de seu líder espiritual que era Samuel. Cada pessoa que deseja tornar-se um líder de sucesso tem de cumprir suas metas na igreja. Na vida, de um modo em geral, só conseguimos êxito quando alcançamos nossos alvos. Cada área da nossa vida tem de ser consolidada por metas alcançadas. Estabeleça suas metas na sua vida espiritual, familiar, material e pessoal e lute porque o seu sucesso depende de sua capacidade de perseguir as metas. Ouça o seu líder e seja fiel a ele. Não seja como Saul, que ignorou Samuel e fez as coisas do seu jeito.

A prática das metas treina nossa obediência: “Eis que o obedecer é melhor que do que o sacrificar.” Por causa do tempo em que vivemos no mundo sem Jesus, não estamos preparados para a obediência. Por isso as metas nos ajudam a treinar esse aspecto da nossa conduta diante de Deus. Sem obediência não alcançaremos êxito na vida. A obediência aos pais, aos discipuladores, aos pastores e principalmente a Deus é indispensável. Temos de aprender a fazer as coisas do jeito de Deus. Não basta fazer! Há pessoas que acham que o importante é unicamente fazer, mas a Bíblia nos mostra que o importante é fazer como Deus deseja.

As metas curam o caráter,
afiando nossas capacidades

As pessoas resistem às metas porque não são treinadas para receber ordens e não gostam disso. Sentem-se ofendidas, manipuladas e ameaçadas. Duas palavras que mais ouvimos recentemente são “alvo” e “metas”. Ficar ouvindo alguém nos pedir as metas não é nada confortante para nós, pois elas nos assustam. Mas ninguém pode dizer que, por causa do estabelecimento de metas, sua vida ficará mais difícil ou mais pobre ou não conseguirá realizar os seus sonhos. Pelo contrário, há os que nem sonham! A visão que nos leva a uma missão e ao estabelecimento de metas despertará sonhos de ganhar vidas, de nos encontrarmos e de termos um ministério pautado em ações específicas que tragam resultados.

Nosso medo das metas vem da referência negativa que temos na nossa tradição cristã baseada numa igreja onde o trabalho era feito por poucos e apreciado e criticado por muitos. Leia Hb 5: 8; Mt 9: 13; Ec 10: 10; 2Tm 2: 15.

As metas dão objetividade ao ministério

Um ministro não pode perder tempo com coisas supérfluas, nem tampouco perder tempo realizando aquilo que, embora seja bom, não faça parte da sua visão de ministério. Há muita coisa boa sendo desenvolvida no mundo cristão, mas nem todas têm relação com a minha visão ministerial. E minha missão não é fazer tudo aquilo que é bom, mas aquilo que Deus preparou para mim. Nesse caso as metas nos ajudam muito porque elas nos tiram do ativismo e nos colocam nos trilhos da visão de Deus pra nós.

Jesus realizou seu ministério baseado numa visão clara revelada nos profetas. Encarnou sua missão de forma radical, mas com metas objetivas. Em Mc 1: 38 Jesus, que já havia curado muita gente no dia anterior, se recusa a ter sua agenda imposta pelo povo ou pelas circunstâncias daquele momento. A multidão queria que Jesus continuasse por ali para curar os demais enfermos daquelas cercanias que estavam vindo até ele. Mas ele disse: “Vamos às aldeias vizinhas, para que ali eu também pregue, porque para isso vim.”

Isso deixa claro que o ministério cristão precisa de objetividade e não somente de ser preenchido com muitas atividades, por melhor ou mais interessantes que sejam.

Princípios para o estabelecimento de metas

A mensurabilidade – Nunca se deve estabelecer uma meta que não possa ser medida. Exemplo: “minha meta é ganhar Arapongas para Jesus”. Essa é uma visão, um sonho, e não uma meta. “Vamos treinar 500 líderes em 3 anos para evangelizar Arapongas”. Isso é uma meta mensurável. Cada meta é parte de todo um sistema de metas com a finalidade de cumprir a visão.

A organização – Quando estabelecemos metas, somos forçados a organizá-las dentro de uma ordem de prioridades para que não haja conflito de metas ou duplicação de esforços. Sem organização é impossível alcançar sucesso. As pessoas envolvidas na visão de uma igreja ou ministério precisam saber o que elas devem fazer, como e quando. O ministro cristão deve saber organizar-se e distribuir as tarefas de acordo com as aptidões, a visão em execução e os apelos da Palavra de Deus. Aprenda a separar as metas organizadamente: estilo de vida pessoal, atividades sociais, metas financeiras, metas de família, etc. Uma forma correta de organizar metas é escrevê-las e treinar as pessoas; no caso de metas pessoais, lê-las com frequência e fazer avaliações periódicas.

Separar as metas permanentes das temporais – As metas são muitas e precisamos aprender a separar as temporais das permanentes para não nos perdermos e ficarmos concentrados em um tipo só de meta, amargando o prejuízo da perda do foco ou visão. Exemplo: orar uma hora por dia deve ser uma meta permanente, porém evangelizar dois jovens no centro da cidade por semana não. A oração deve ser permanente: nunca devemos parar de orar; contudo evangelizar os jovens não. As metas podem mudar, mesmo porque elas são muitas numa visão ministerial. Temos de estar atentos para modificarmos as metas assim que as situações exigirem.

O princípio do realismo – Há muito exagero por aí. Os líderes nem sempre olham para a realidade que os cerca e isso é um perigo muito grande que pode render frustração e fracasso. Por exemplo, um seminarista de 2° ano num curso de quatro anos não pode estabelecer a meta de ser diretor do seminário em um ano. Mas, se ele estabelecer a meta de alcançar esse objetivo em 20 anos, isso fica mais realista. O ministério não suporta mágica. Ele é feito por homens e mulheres de visão, mas também por pessoas que sabem discernir seu potencial sem subestimá-lo nem superestimá-lo.

Conclusão

O desejo de Deus é que aprendamos a colocar em prática o propósito maravilhoso que Ele tem para as nossas vidas através de metas mensuráveis e não vivamos por aí fazendo as coisas de qualquer jeito, sem organização. Lute e descubra o que Deus tem pra você e estabeleça como você vai fazer cada coisa e quando vai fazer. Deus o abençoe e conte com a sabedoria e a unção do Espírito Santo.

O estabelecimento de metas é fruto de uma disciplina permanente. Não há como você elaborá-las de uma vez por todas. Seja um ministro de visão clara, apaixonado, a ponto de tornar sua visão na missão da sua vida. Seja capaz de estabelecer metas bem definidas e trabalhar focalizado nelas em todo o tempo.

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Fonte: Jornal Aleluia de abril de 2004